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Setembro 27, 2009

Programas a favor da maconha se espalham pelas TVs dos EUA

Dicas para cultivar maconha. Testemunhos de pacientes sobre seus benefícios médicos. Receitas de culinária com cannabis. Até citações a variações premiadas da erva. Os espectadores de Los Angeles podem agora assistir, toda semana, um programa de notícias pró-maconha.

Rejeitado por um canal de TV que se assustou, mas rapidamente recebido por outro, o programa “Cannabis Planet”, de baixo orçamento, é a prova televisiva do quanto a maconha está estabelecida no ambiente cultural da Califórnia, além de um potente exemplo de como a subcultura da droga está se infiltrando na cultura tradicional do país.

“Estamos tentando mostrar a legitimidade dessa planta”, disse Brad Lane, produtor-executivo do programa de meia hora.

Lane paga pelo seu tempo no ar duas vezes por semana no canal independente KJLA – nas noites de quinta-feira e sábado às 23h30, entre “Bikini Beach” e “Jewelry Central” – e diz que agora ele não tem nem lucro nem prejuízo, quase dois meses depois da estreia do programa. “Cannabis Planet” tem como foco os usos médico, agrícola e industrial da planta, ignorando intencionalmente os aspectos recreativos da maconha. Os telespectadores, por exemplo, raramente veem alguém fumando no programa, mesmo que os âncoras e produtores sejam conhecidos por fumar nos intervalos. “Estamos pisando em ovos aqui, para ser sincero”, disse Lane.

Ainda assim, “Cannabis Planet” continua no ar – sem nenhuma reclamação dos espectadores, de acordo com o canal.

O uso da maconha tem sido mostrado na mídia há décadas, embora sua presença tenha aumentado e diminuído ao longo do tempo, desde os filmes de comédia e discos de Cheech & Chong no final dos anos 70 e começo dos 80 até as tentativas mais recentes de “Half-Baked” de Dave Chappelle e “Pineapple Express” de Seth Rogen, que têm a droga como tema. Na televisão, entretanto, o assunto raramente é levado além do nível da piada ou estratégia de roteiro – até recentemente.

A maconha é legalizada para fins médicos em 14 Estados dos EUA, e a organização Norml diz que há iniciativas para legalizá-la em 15 outros Estados. A maconha continua ilegal pela lei federal, mas numa mudança radical em relação às políticas anteriores, o governo Obama disse em fevereiro que os oficiais federais parariam de fazer batidas em distribuidores de maconha medicinal [clínicas e farmácias] autorizados pelas leis estaduais.

Desde então o número de distribuidores na Califórnia aumentou, num movimento que alguns chamaram de “febre verde”.

“Isso de fato explodiu”, disse Jay Peterson, produtor-executivo da Original Productions, que está trabalhando com a Blue Dream Media para criar um reality show ambientado num “grupo de maconha”, ou centro de distribuição, em Hollywood. O programa, “Top Bud”, pretende ser uma mistura entre “LA Ink”, programa do canal TLC produzido pela Original sobre um estúdio de tatuagem movimentado, e “Weeds”, o seriado dramático de sucesso sobre a vida de uma mãe traficante com dois filhos.

“Apesar de a droga ser ilegal na maioria dos Estados, a ideia é mostrar que há um mundo onde ela é legal, e onde as pessoas a estão usando”, disse Peterson.

Os produtores estão tentando vender “Top Bud” para as redes de TV. Peterson reconheceu que há uma certa hesitação a princípio, mas disse que sua companhia já conquistou “um sólido interesse”.

Há uma agitação parecida no mundo da TV roteirizada. Em “Glee”, o novo musical colegial da Fox, um dos personagens é um vendedor de maconha para fins médicos. No Festival de Televisão de Nova York na semana que vem, um dos projetos de piloto que buscam uma rede de TV será “Rx”, um drama que se passa no mundo da maconha para fins médicos.

Uma série de reportagens na mídia documentou o uso de maconha, citando entre outros exemplos referências frequentes à droga na mídia e depoimentos de aprovação por parte de uma lista cada vez maior de celebridades. Este mês a capa da revista Fortune pergunta: “A maconha já é legal?”. A CNBC repete seu documentário que estreou há oito meses sobre o mercado da maconha, “Marijuana Inc.”, pelo menos uma vez por semana; e ele continua sendo classificado como um dos documentários mais populares do canal.

A inspiração de Lane para “Cannabis Planet” veio de algo mais prático: ele percebeu um número cada vez maior de anúncios nos jornais locais para a cannabis médica. “Foi o único segmento de mercado que eu vi crescer”, disse ele durante o jantar num decadente restaurante chinês em Pico Boulevard.

Lane produziu programas para a TV sobre snowboarding e surfe durante vários anos. Cansado do que ele chamou de “demonização da planta da cannabis”, ele quis enfatizar os usos da maconha como “combustível, fibra, comida e medicina”, como ele e seus âncoras costumam dizer.

Primeiro ele comprou tempo no ar no KDOC, um canal independente em Orange County, Califórnia, mas no final de julho funcionários do canal ficaram nervosos quanto ao assunto. Ele se lembra de um funcionário dizendo a ele: “Estamos um pouco preocupados porque o tópico é muito controverso”, e ele foi instruído a retirar o anúncio que tinha comprado para o programa. O KDOC recusou-se a comentar.

Lane logo mudou o “Cannabis Planet” para o KJLA, outro canal independente que atinge cerca de cinco milhões de lares no sul da Califórnia, que disse que estava feliz em transmitir o programa, com um aviso legal eximindo-se da responsabilidade sobre o conteúdo.

Um californiano nativo, dado a declarações do tipo “Você sabia que a guerra de 1812 foi por causa da maconha?”, Lane disse que fuma maconha desde seu segundo ano de faculdade. Ele agora é um usuário médico de maconha, disse, dependendo da droga para atenuar seu distúrbio de hiperatividade e déficit de atenção.

“Cannabis Planet” está começando a dar lucro, disse Lane, por causa de uma lista cada vez maior de anunciantes, que incluem desde médicos que receitam a planta a companhias que vendem fertilizantes para produtores. Agora ele quer sindicalizar a série, disse, e está negociando com canais em San Diego e Denver.

O programa de Lane faz companhia para “Cannabis Common Sense”, um programa semanal a cabo em Oregon que começou no final dos anos 90 e é produzido por um grupo de defesa da cannabis.

Calvina Fay, diretora executiva da Fundação Drug Free America, disse que um programa de TV semanal elogiando a maconha e dizendo que ela é inofensiva contribui para que o público tenha uma percepção inapropriada da droga. “Eles estão colocando as vidas das pessoas em perigo ao promover uma erva tóxica e prejudicial para pessoas doentes e ignorando intencionalmente os danos que ela pode causar”, disse ela, acrescentando que a droga foi “relacionada a uma variedade enorme de problemas de saúde”.

Lane, discordando veementemente dos grupos antidrogas, diz que seu programa existe para difundir fatos sobre a cannabis. É por isso que ele não apresenta informações sobre o uso recreativo da maconha por enquanto.

“Infelizmente, isso ainda é visto como ofensivo por muitas pessoas”, disse.

Fonte: Portal UOL

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