
Ato contra aumento da passagem de ônibus acaba com presos e feridos no centro de São Paulo
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“Atenção, cidadãos, no que eu vou lhes falar
A polÃcia, irmãos, não dá mais para agüentar
Agridem, as pessoas sem ter um porquê
Cuidado, pois o próximo às vezes é você
Se não vão com sua cara lhe dão uma geral
Mas nunca aplicam no verdadeiro marginal
Se você for preto como eu ou meu irmão
Parado é suspeito, correndo ladrão
Se você vai fazer jus ao seu direito de greve
Lhe dão muita porrada com uso do casseteteâ€
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Caso de polÃcia, Rappin Hood
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Por Júlio Delmanto
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Como há muito se esperava, em 4 de janeiro o prefeito Gilberto Kassab (DEM) anunciou aumento de 17,39% no preço das passagens de ônibus da capital paulista. O valor subiu de já altos R$ 2,30 para impressionantes R$ 2,70, sendo que, no perÃodo entre 2006 e 2009, a inflação foi de 15,36%. A Rede Contra o Aumento da Tarifa já vinha se articulando desde o final do ano passado, e promoveu, na última quinta-feira, 7, um ato de rua no centro de São Paulo. A reação do poder público infelizmente foi previsÃvel: porrada.
A concentração aconteceu em frente ao Teatro Municipal, de onde as cerca de 300 pessoas saÃram em marcha rumo ao Terminal Parque Dom Pedro II aos gritos de “Aqui é o povo unido contra o aumento do busão†e “Ei, Kassab, vai tomar no cuâ€. Apesar da agressividade nas palavras de ordem, o ato seguia absolutamente pacÃfico. As únicas contravenções foram uma ou outra pichação com dizeres como “2,70 é crime†ou “estou cansado de ser enganadoâ€. A reação dos pedestres era de apoio não muito participativo, e a polÃcia acompanhava, apontando perigosa e desnecessariamente suas motocicletas para as pernas dos manifestantes.
Nos aproximamos do Terminal pela Rangel Pestana e a polÃcia decidiu fechar o acesso já ali. Ligeira confusão, e o informe – posteriormente confirmado – de que uma pessoa teria sido atropelada por uma viatura. Um policial, tenente, apontou sua arma para um grupo de manifestantes que “ameaçadoramente†formavam uma corrente, de braços dados, para evitar outros atropelamentos. O tal tenente manteve esse procedimento durante toda a operação, agredindo verbalmente diversos participantes do ato.
Após esse primeiro entrevero, meia volta, e o ato segue outro caminho para chegar ao terminal. Aumenta muito o número de viaturas, que agora seguem atrás da manifestação (algumas com sirenes ligadas). Ao chegarmos em frente ao terminal, parte das pessoas começa a entrar e então os homens e mulheres de farda começam a fazer o que manda seu treinamento: agredir a população. Num intervalo entre jatos de spray de pimenta (arma proibida em diversos paÃses por ser extremamente tóxica, ainda mais quando atirada de perto), bombas de gás e pancadas de cassetete em quem quer que fosse. Pergunto a um policial qual é o problema. “Por que não podemos entrar no terminal?â€. “Quem está na manifestação deveria saberâ€, responde o policial sem identificação. “Pois eu não sei. Por que não pode?â€, questiono. “Eu não sei! E não te interessa!â€, ele responde, já gritando. “É claro que interessa, por isso estou perguntandoâ€, respondo, tentando dialogar antes que ele ameace me bater. Um outro policial pede que eu me afaste.
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Mais à frente, um jovem está sendo espancado no chão. Um policial com o joelho em seu peito. Nossa fotógrafa Gabriela se aproxima para documentar o ataque covarde, e começa a ser agredida por um policial alto e branco: “Você está tirando foto da cara de policial, você tá louca?â€, berra transtornado, assumindo sua condição de ilegalidade. Ele a empurra, gritando cada vez mais alto. O jovem espancado é enjaulado no porta-malas da viatura, ao mesmo tempo em que um fotógrafo toma um chute na cara por tentar registrar a cena. Outro rapaz, cabeludo, recebe um jato de spray de pimenta direto no rosto, a poucos centÃmetros de distância.
Alguns policiais usam escudos, outros capacetes. Pedestres e usuários do terminal também apanham, algumas senhoras gritam apontando seus guarda-chuvas. A passarela que sai do terminal vira refúgio, e algumas pessoas atiram coisas lá de cima, entre elas um sapato. Como reação, bombas são jogadas para todo lado, e o “efeito moral†de uma delas corta minha panturrilha. Bombas de gás também cortam o ar, e quem queria só pegar um ônibus pra voltar pra casa agora não consegue nem respirar. Há grupos de policiais agredindo pessoas dentro e fora do terminal, e alguns chegam a subir na passarela, onde havia um manifestante para cada 20 pessoas que não tinham nada a ver com o protesto. Os seguranças dentro do terminal colaboravam com a violência, também portando cassetetes. Um policial barrigudo derruba sua arma no chão, mostrando não só falta de responsabilidade como também de preparo – e se a arma disparasse?
Saldo final do ato: quatro detidos (um menor de idade), dois por “desacatoâ€, dois por “resistência à prisão†(detidos sem razão, ainda são incriminados por supostamente resistirem). Todos foram encaminhados à 1ª DP, e dois prestaram queixa contra a polÃcia por agressão. Um policial estava com o pé ferido. O jovem atropelado foi atendido no pronto socorro e liberado, com ferimento no rosto. Uma menor teve a cabeça aberta por uma paulada de cassetete e recebeu pontos; uma universitária recebeu três balas de borracha, sendo duas nas costas, e apresentava ferimentos no rosto. Depoimentos apontam que na confusão dois homens negros, possivelmente moradores de rua, foram algemados e levados em viaturas.
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Em entrevista ao UOL, a assessoria da polÃcia afirmou que a repressão aconteceu porque os manifestantes estariam ocupando o terminal para liberar as catracas dos ônibus. No entanto, a violência ocorreu imediatamente após a entrada de uns poucos membros do protesto no terminal, sem que houvesse tempo para liberar catraca nenhuma. Além disso, a repressão atingiu em sua maioria pessoas que não entraram no terminal. Muitas delas sequer participavam do ato. Sem falar na absoluta desproporcionalidade da suposta reação.
Façamos apenas um exercÃcio, imaginando como seria a manifestação sem a presença da polÃcia. Supondo que houvesse de fato a liberação de uma ou outra catraca – o que poderia facilmente ser coibido pela segurança do próprio terminal, afinal para que ela existe? –, qual outro problema haveria? Havia necessidade do destacamento de tantos policiais para a operação? A polÃcia precisa necessariamente se portar com agressividade em cem por cento de suas ações? Reação violenta e inconsequente é a melhor maneira de conter pequenos distúrbios no meio de uma manifestação absolutamente pacÃfica?
Bombas de gás e spray de pimenta em meio à grande concentração de pessoas, muitas delas sem qualquer relação com o protesto, é uma atitude sensata por parte de quem supostamente zela pelo interesse público? Quem causou mais desordem, os manifestantes ou a polÃcia?
Saldo final desse (e de todo) contato com a polÃcia: ódio, sentimento de injustiça. Não fica difÃcil imaginar o que sente quem tem esse tipo de contato diariamente nas periferias e zonas rurais do paÃs, onde tantos e tantos crimes são praticados impunemente por violentos e desumanizados agentes do Estado. Não fica difÃcil também entender de onde vêm os versos cantados por MV Bill: “quando o ódio dominar, não vai sobrar ninguém / o mal que você faz, reflete em mim também/ respeito é pra quem temâ€.
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Júlio Delmanto é jornalista
<!–ENTREVISTA EXPLOSIVA
LuÃs Nassif
Tudo pelo jornalismo, inclusive pôr a cara para bater. É isso que ele diz movê-lo a desafiar a revista Veja por meio de uma série de matérias contundentes que publica na Internet: Dossiê Veja. Seu blog tornou-se um dos campeões de audiência. Porque não é todo dia que alguém decide enfrentar os supostamente mais poderosos meios de comunicação.
Entrevistadores: José Arbex Jr., Renato Pompeu, Thiago Domenici, Marcos Zibordi, Mylton Severiano, Sérgio de Souza. fotos: Eduardo Zappia.
Trecho 01
SÉRGIO DE SOUZA | Como é que você chega nessa imprensa grande?
Me formei em 69, em São João da Boa Vista. Depois prestei vestibular pra ECA, pra USP e passei. Tenho uma tia que foi casada com o jornalista Luis Fernando Mercadante, que foi da Abril e da Globo, e quando vim pra cá ele me apresentou para o jornalista Talvani Guedes da Fonseca, que me arrumou um estágio na Veja. Fiquei três meses estagiário, daà fui contratado como repórter. Fiz carreira na Veja até 79, quando fui pro Jornal da Tarde. Na Veja a gente pegou aquela fase complicada de ditadura e à medida que comecei a entrar mais na área econômica as informações que a gente levantava passava para o movimento (jornal oposicionista), do Raimundo Pereira. No Jornal da Tarde, quando começou a era da informática eu já passei a me preparar, achava que o computador – não pensava em Internet ainda, mas havia o chamado Cirandão (uma espécie de rede) – seria a liberação do jornalista. Daà fui pra Folha em 83, saà em 87, 88, e fi quei com o Dinheiro Vivo, continuo até hoje. Em 91 voltei pra Folha de novo e agora estou um blogueiro.
Trecho 02
JOSÉ ARBEX JR. | Qual foi o elemento detonador desse movimento dentro da Veja?
Foi uma pesquisa feita pelos jornalistas Pompeu de Souza e o D´Alembert Jaccoud mostrando que o Euler Bentes tinha uma votação boa no Congresso contra o João Baptista Figueiredo. Quando chegou na redação, eles inverteram os dados, e aquilo foi um problema, juntou todo mundo e “ó, gente, vocês podem ir na linha da revista, mas não podem inverter dados assimâ€. Ali começou o processo de “passaralho†(demissão em massa), começou uma perseguição terrÃvel em cima das pessoas. Eles não conseguiram me demitir, eu saà quando tive a proposta do Jornal da Tarde. Agora, aquilo foi muito importante, porque quando eles te jogam no meio da guerra você perde o medo e manda bala. Pra mim foi uma maneira de sair da concha e saber que os ambientes de redação são complicados; se você não cria uma imagem, uma marca própria, você fi ca refém. Lembro um ótimo colega que falava: “Não adianta, você não vai fazer carreira porque você é bom jornalista mas não sabe conviver com a estruturaâ€. E eu nunca consegui. O perÃodo que fi quei secretário de redação da Folha foi o pior perÃodo da minha vida, porque se eu tiver que trabalhar catorze horas por dia eu trabalho com gosto; se eu tiver que dedicar trinta minutos pra entender essas guerrinhas de puxar o tapete daqui e dali, pra mim é um desespero. No Jornal da Tarde tive o perÃodo mais criativo. Montei o Seu Dinheiro, o Jornal do Carro, mas quando surgiu o computador eu falei: “Preciso criar uma marca própria, se depender de redação eu não dou certoâ€.hoje. Em 91 voltei pra Folha de novo e agora estou um blogueiro.
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