
Por Sérgio Vidal, antropólogo e representante da UNE no CONAD
Recebi esta semana o email da antropóloga Beatriz Labate chamando atenção para o fato de que a Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Droga (ABRAMD) estaria realizando um evento com o tÃtulo: “Não há drogados felizes”. A ABRAMD é uma instituição séria, que tem demonstrado compromisso com a ampliação dos olhares das ciências sobre as drogas, seus usos e usuários. Mas devemos concordar que, mesmo com a boa intenção de prestar uma homenagem mais que merecida ao pioneirismo de Olivenstein, devemos concordar que, no contexto atual, a escolha da frase que dá a cara do evento é que foi muito infeliz.
Abaixo a carta, que eu e outros pesquisadores do NEIP – Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Psicoativos, assinamos embaixo.
“Caros amigos da Abramd:
Nós vimos o anúncio da ABRAMD sobre o evento a ser realizado no colégio Santa Cruz em breve, e gostarÃamos de parabenizá-los pela iniciativa. É ótimo ver o debate sobre drogas avançando no nosso paÃs. Esperamos que o encontro seja um sucesso, e aguardamos notÃcias a respeito. Gostariamos também de fazer um comentário sobre o tÃtulo do encontro: achamos que deverÃamos evitar o uso de palavras como “drogados” ou “viciados” nas nossas reflexões públicas sobre o tema. Sabemos que o nome do encontro se refere ao tÃtulo de um livro de Olivenstein, e imaginamos que foi escolhido por ser uma frase de impacto, talvez para chamar a atenção para a importância do debate. Também reconhecemos o papel pioneiro deste pesquisador não só na França, mas também no Brasil e no mundo, e imaginamos que o assunto será discutido com maior profundidade na ocasião. Porém, mesmo assim, não achamos feliz a escolha deste nome, por reificar um forte esteriótipo social, sendo, portanto, anti-produtivo.
Se queremos levantar novas idéias sobre este assunto polêmico, precisamos evitar os “vÃcios†da linguagem… Afinal, a forma de nomear as coisas também é uma maneira de classificá-las. Como sabemos, a categoria “drogado” homogeniza em uma só escala uma série de diferentes eventuais modalidades – uso dependente, recreativo, artÃstico, esporádico entre outras formas de se relacionar com os psicoativos – numa só categoria de uso, invariavelmente terrÃvel. Isto não corresponde a realidade, pois uma série de pesquisas indicam que apenas uma parcela dos usuários de diferentes substâncias psicoativas são usuários severamente problemáticos.
Há uma série de usos não dependentes de drogas, e alguns deles possivelmente até criativos, como voltados para o desenvolvimento artÃstico, espiritual ou intelectual, para citar apenas alguns. Há muitas pessoas que utilizam substâncias psicoativas e são pais de famÃlia, trabalhadores, e perfeitamente integrados na sociedade. Não estamos dizendo que não existem usos problemáticos, é claro que sim. A escolha da frase “Não há drogados felizes” como tÃtulo de um importante evento, contudo, sem um contexto adequado e sem ser matizada, acaba por colaborar na retificação de uma ideia já tão problemática quanto desgastada.
“Drogado” e “viciado” são termos criticados e rejeitados por especialistas da área por serem preconceituosos e estigmatizantes. Antes de mais nada, estes termos reduzem todas as atividades de um ser humano ao uso de drogas. O “drogado” ou o “viciado” não é nada além de seu hábito de consumir certas substâncias; ele não é pai, marido, homem ou mulher, torcedor de um time, morador de um bairro, mecânico etc. Toda a sua identidade é reduzida ao consumo que faz de uma determinada substância. Além disto, tais termos implicam numa crÃtica e julgamento à pessoa, são uma espécie de xingamento que não contribuem para fortalecer a sua auto-estima e transformação. Além de serem patologizantes, são moralizantes, isto é, tratam um problema de saúde como questão moral, atribuindo ao usuário uma visão de espécie de “pervertido”, “desviado”, categorias igualmente complicadas, estigmatizadoras e cambiantes –
assim como o homossexual, no passado, foi visto como um “doente que precisava ser curadoâ€.
Por fim, se fossemos entrar numa discussão mais propriamente sociológica, poderÃamos entender como o construto do “viciado” tem funcionado com uma categoria “acusatória”, que tem a sua gênese histórica na década de 70, sendo uma das maneiras de desqualificar determinados discursos crÃticos, associados a esquerdistas, os subversivos e drogados. Há um estudo antropológico clássico, de Gilberto Velho, sobre isto: “Individualismo e Cultura: notas para uma Antropologia da sociedade contemporânea ” (Jorge Zahar Editor, 1987).
A ABRAMD, uma importante Associação que pretende se tornar referência na área, ao propor um evento de discussão sobre um tema tabu como o das drogas, com um tÃtulo destes, acaba por ir contra um dos próprios fundamentos que gerou o nascimento desta Associação, que é uma visão menos demonizante do uso das drogas.
Esperamos que nosso comentário seja compreendido dentro do âmbito do debate intelectual, e levado em conta, até porque alguns dos membros do NEIP são tambem membros da ABRAMD.”
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NOTA DOS AUTORES DO BLOG: Além de concordarmos com o teor da carta acima, que é suficientemente auto-explicativa, lembramos também um fato curioso, que dá a medida de como a escolha do nome do evento foi infeliz e contraditória com a filosofia de trabalho da ABRAMD: a primeira página do boletim deste mês da entidade destaca um artigo, assinado pelo Dr. Telmo Rozani, diretor de polÃticas de prevenção e tratamento da Secretaria Nacional Sobredrogas (Senad), cujo tÃtulo é “Estigma social e uso de substâncias psicoativas”. Nele, o Dr. Telmo explica, entre outras interessantes assertivas, o seguinte:
“Várias pesquisas já demonstraram que o processo de moralização do uso é proporcionalmente inverso ao resultado e qualidade da assistência e que vários usuários retardam a procura de ajuda a profissionais de saúde por receio de serem estigmatizados. Por essa razão, é fundamental o trabalho de desestigmatizaçã de usuários principalmente entre profissionais de saúde em geral, em especial de Atenção Primária à Saúde como os Programas de Saúde de FamÃlia que têm contato constante com a comunidade e tem a oportunidade de fazer um trabalho adequado de prevenção ao uso ou acolhimento aos usuários de drogas”
De fato, para uma entidade que defende o fim do estigma e do estereótipo om relação ao usuário de drogas, o tÃtulo escolhido para o evento foi mesmo um grande equÃvoco.