
Situação ocorre em Marjah, região dominada pelo Talibã desde fevereiro. Mas autoridades locais ainda defendem destruição de campos de papoula.
Rod Nordland Do New York Times, em Cabul
O esforço para conquistar afegãos numa antiga área de influência do Talibã em Marjah colocou comandantes americanos e da Otan na posição pouco comum de argumentar contra a erradicação do ópio – o que os coloca em oposição a algumas autoridades afegãs que pressionam pela destruição desse tipo de plantação.
Do general Stanley A. McChrystal até o posto hierárquico mais inferior, a posição militar é clara: “As forças americanas não erradicam maisâ€, como colocou um oficial da Otan. O ópio é o principal meio de vida de 60% a 70% dos agricultores de Marjah, que foi dominada por rebeldes do Talibã numa grande ofensiva em fevereiro. Marines americanos que ocupam a área receberam ordens de deixar em paz os campos dos agricultores.
“Marjah é um caso especial no momentoâ€, disse o comandante Jeffrey Eggers, membro do Grupo de Consultoria Estratégica do general, seu maior órgão consultivo. “Não atropelamos o sustento daqueles que estamos tentando conquistar.â€

Autoridades que lidam com questões relacionadas a drogas das Nações Unidas concordam com os americanos, embora reconheçam o impasse. Imagens de soldados da Otan e outros aliados “caminhando perto de plantações de ópio não caem bem junto ao público doméstico, mas a abordagem de adiar a erradicação neste caso especÃfico é sensataâ€, afirmou Jean-Luc Lemahieu, encarregado do Gabinete de Drogas e Criminalidade da ONU aqui no Afeganistão.
No entanto, autoridades afegãs estão divididas. Muito embora alguns apóiem a posição americana, outros, citando uma proibição constitucional sobre o cultivo de ópio, querem eliminar as plantações antes da colheita, que já se iniciou em algumas partes da provÃncia de Helmand.
“Como podemos permitir que o mundo veja forças da lei responsáveis por Marjah perto de plantações de ópio, que de uma forma ou de outra será colhido e transformado num veneno que mata pessoas no mundo todo?â€, disse Zulmai Afzali, porta-voz do Ministério de Combate aos Narcóticos do Afeganistão.
“O Talibã é quem lucra com o ópio, então estamos deixando que o inimigo seja financiado por isso, depois ele vai nos matarâ€, acrescentou, referindo-se à forma como o Talibã pressiona agricultores para obter dinheiro para suas operações.
O argumento pode ser considerado por algumas pessoas como uma mudança radical nas tensões anteriores com autoridades afegãs, alguns dos quais resistiram veementemente à pressão americana para acabar com a produção de ópio nos anos após a invasão de 2001.
Embora a posição oficial do governo dos Estados Unidos ainda seja apoiar a erradicação das plantações de ópio em geral, algumas autoridades civis americanas afirmam que o debate internacional sobre Marjah está longe do fim em alguns setores do Departamento de Estado e da Administração de Coerção a Drogas.
Um porta-voz da embaixada americana em Cabul, Brendan J. O’Brien, disse que oficiais se recusaram a comentar enquanto o assunto estivesse sendo analisado.
No centro do debate com autoridades afegãs está uma importante questão de causa e efeito: será que a fraca segurança em Marjah é a razão pela qual há tanto ópio, ou será que é tanto ópio a razão pela qual a segurança tem sido fraca?
“Em todas as provÃncias do Afeganistão onde você encontra o cultivo de ópio há insegurança como resultadoâ€, disse Afzali.
Militares americanos e oficiais das Nações Unidas veem o problema de outra forma. O cultivo de ópio tem sido amplamente eliminado em 20 provÃncias onde a segurança foi melhorada, e nas sete provÃncias mais inseguras a papoula ainda é cultivada.
“Nada pode competir com o ópio num ambiente inseguroâ€, disse Lemahieu. “Um ambiente seguro é precondição para governança e uma solução de longo prazo:â€.
Embora a Força Internacional de Assistência à Segurança, a força da Otan comandada por McChrystal, já não realize mais programas de erradicação, sua posição oficial é apoiar os esforços do governo afegão para erradicar o ópio e ceder apoio e proteção a oficiais das provÃncias, responsáveis por operar o programa de erradicação.
O governador da provÃncia de Helmand, Gulab Mangal, entusiasmado antiópio, tem histórico de sucesso, havendo reduzido o cultivo em 33% no ano passado. Mas ele também está disposto a abrir uma exceção para a atual colheita em Marjah – pelo menos por enquanto.
“Em geral, meus superiores me disseram que este ano não vamos erradicar o ópio ali, pois as pessoas sofreram muitas dificuldades devido ao conflitoâ€, disse Mangal. “Podemos fazer isso no ano que vemâ€.
Entretanto, Afzali disse que o Ministério de Combate aos Narcóticos ainda esperava prevalecer a tempo de erradicar a atual colheita em Marjah.
Mangal disse: “Se eles mandarem, começo a destruição do ópio de Marjah no mesmo diaâ€.
O problema da colheita de ópio de Marjah está sendo discutido intensamente pelos conselheiros de McChrystal, mas nenhuma das soluções propostas se mostrou satisfatória. Uma ideia era comprar e destruir a colheita de ópio, mas opositores desta proposta temem que isso só motivaria ainda mais o cultivo do ópio – e poderia ser ilegal de acordo com leis dos Estados Unidos, transformando tropas americanas em financiadores de drogas.
Outra ideia era dar incentivos a agricultores para que eles passassem a plantar cultivos legalizados no ano seguinte, enquanto este ano seria focado na interdição de traficantes e dos laboratórios usados por eles para produzir ópio ou heroÃna a partir da pasta de papoula. Isso instituiria um tipo de polÃtica “não pergunte, não diga†em relação aos agricultores e traria uma pergunta espinhosa: Onde as tropas interditariam o ópio – fora do portão da propriedade agrÃcola, no caminho saindo da fazendo ou na estrada para a cidade?
“Como apoiamos o cumprimento da lei enquanto aplicamos uma penalidade adequada e desincentivadora, para que eles mudem de plantação no ano seguinte?â€, questionou Eggers. “Estamos num verdadeiro dilemaâ€.
Resta pouco tempo para encontrar uma resposta: dois terços dos campos de Marjah estão agora cheios de papoulas vermelhas, e a próxima colheita geraria trabalho para milhares de afegãos de fora da região, pois necessita de muita mão de obra.
Helmand produz mais da metade da colheita de ópio do Afeganistão – 22% de sua terra arável é dedicada a papoulas, mesmo depois que forças de Mangal erradicaram um terço da plantação no ano passado. Sua provÃncia recebeu uma verba de US$ 10 milhões da Iniciativa de Bom Desempenho da embaixada americana por causa desse esforço.
O Afeganistão produz hoje 90% do ópio do mundo. De uma forma ou de outra, o comércio do ópio sustenta cerca de 1,4 milhões de lares no paÃs, que tem uma população de 25 a 30 milhões de pessoas. Ele também fornece grandes quantidades de dinheiro para o Talibã – um recente estudo das Nações Unidas estima que os insurgentes tenham ganhado US$ 600 milhões em taxas cobradas de agricultores e traficantes, entre 2005 e 2008.
Os agricultores não ficam ricos com a colheita.
Hajji Said Gul, agricultor de 51 anos com 3,5 hectares de papoulas em Larjah, disse que, depois de ter quitado empréstimos para comprar sementes e dado ao Talibã 10% dos lucros, ele ganhou US$ 500 por acre com a colheita. Ele não teme a erradicação. “O Talibã já nos prometeu que continuará lutando contra o governo e as forças estrangeiras até que a gente tenha colhido as plantaçõesâ€, disse ele. “Todas as minhas esperanças estão na colheita das papoulasâ€.
Muhammad Nabi, 52 anos, ancião tribal, disse: “É melhor que eles não destruam as plantações este ano. No ano que vem, se eles fornecerem uma segurança melhor, programas de reconstrução e trabalho, então nós garantimos que não vamos plantar papoulas.â€
O preço do ópio está agora em baixa recorde, depois de anos de superprodução no Afeganistão. Há alguns anos, agricultores poderiam ganhar 37 vezes mais com o ópio do que com o trigo, a plantação substituta preferida dos tempos recentes; agora, o ópio vale duas ou três vezes mais, afirmam autoridades das Nações Unidas.
Lemahieu disse acreditar que, se houvesse a oportunidade de persuadir os agricultores a mudar para plantações legalizadas, o governo ofereceria serviços como escolas e clÃnicas, e então eles poderiam estar dispostos a aceitar lucros menores.
“Entre a renda do ópio de ontem e a renda legalizada de amanhã, o hoje exige um aumento na qualidade de vida para o agricultor e sua famÃliaâ€, disse ele. Autoridades ocidentais afirmam que, se destruÃrem a plantação este ano, não terão nenhum resultado, a não ser a raiva dos agricultores.
Taimoor Shah contribuiu com a reportagem de Marjah e um funcionário afegão do The New York Times contribuiu de Lashkar Gah, Afeganistão.
Tradução: Gabriela d’Ãvila