
Para além da denúncia ao proibicionismo
Organizado horizontalmente e sem ligação com empresas e partidos polÃticos, o Coletivo Desentorpecendo A Razão (DAR) parte da análise de Maria Lúcia Karam, que sustenta que somente uma razão entorpecida pode conviver com a arbitrária e injustificável proibição de algumas drogas trazendo tantos efeitos polÃticos e sociais nefastos. O entendimento de que o proibicionismo é um fracasso e um problema muito maior que o abuso de drogas caminha para se tornar hegemônico nacional e internacionalmente.
Por isso o DAR acredita que devamos aproveitar momentos como esta Conferência para ir além. Obviamente que em nosso trabalho público junto à sociedade devemos trabalhar para uma ampliação do debate sobre as drogas tornadas ilÃcitas, e devemos dialogar com todos os entendimentos desta questão, mas em dias como estes no Rio de Janeiro talvez seja o momento de nos perguntarmos: o proibicionismo fracassou, e agora?
Para além da crÃtica a uma proibição das drogas que traz violência do crime e do Estado, corrupção, lavagem de dinheiro, criminalização da pobreza e intervenção imperialista, já se configura uma situação de disputa entre os projetos de alternativa. Desde aquelas que “mudam tudo para não mudar nadaâ€, como por exemplo a mera descriminalização do consumo pessoal que mantém a “guerra à s drogas†inalterada, à propostas de legalização estatal ou de livre mercado, passando pela opção de liberação e auto-regulamentação das drogas, há uma série de alternativas colocadas, e que devem ser problematizadas a fundo.
Qual o melhor horizonte a ser almejado? Qual o caminho a ser trilhado? É possÃvel uma estratégia que coesione o movimento antiproibicionista e o conecte com a sociedade em geral? Qual o papel da disputa institucional e dos diferentes poderes estatais nesta caminhada? Descriminalização ou legalização da maconha podem constituir um primeiro passo ou acabam reforçando o proibicionismo quando parecem questioná-lo? De que forma o fortalecimento da Redução de Danos pode transbordar do âmbito da saúde e se estender a mudança de mentalidade em nÃveis mais amplos? Que interesses polÃticos e econômicos há por trás destas propostas e de quais devemos manter distância?
Pela diversidade de nossa composição e pelo estágio ainda pouco avançado do debate no paÃs, o Coletivo DAR se propõe a trabalhar no nascimento das perguntas mais do que na apresentação de respostas. Elas surgirão não só de interações como esta da conferência mas principalmente da prática diária da busca de alternativas viáveis e aceitas socialmente. No entanto, espaços como este são fundamentais exatamente para que troquemos experiências no sentido da busca de proposições para além das que trabalhamos em nosso dia a dia, concretizando em táticas e estratégias a razão desentorpecida que buscamos. Esperamos avançar neste sentido, aproximando e fortalecendo o antiproibicionismo brasileiro e latino-americano e também trazendo estes para mais perto do dia a dia das pessoas e dos movimentos sociais organizados.Num paÃs em que tudo se define de cima pra baixo, não podemos deixar de lutar por garantir um cenário de alternativas condizente com todos envolvidos na questão.
Coletivo DAR, Rio de Janeiro, 26 e 27 de agosto de 2010