Dez meses após a ocupação da Força de Pacificação, moradores do Complexo do Alemão fizeram a primeira manifestação contra ação do Exército, responsável pela segurança da região. Eles acusam os soldados de terem agido com violência domingo contra um grupo de moradores em bar, quando quatro militares e cinco locais ficaram feridos. Em outra comunidade pacificada, a Cidade de Deus, também houve confusão domingo. PMs foram atacados após baile funk. Um policial e três moradores foram feridos.
No Alemão, foram estendidas oito faixas nas comunidades contra a Força de Pacificação. “O povo do Alemão é humilhado pelo Exército. Sai o Comando Vermelho, entra o Comando Verde”, dizia uma, em alusão à facção criminosa que dominava a comunidade antes da pacificação. Outra, pendurada na Estrada do Itararé, tinha os seguintes dizeres: “governador trocou seis por meia dúzia. A ditadura continua”.
Na hora em que uma das faixas era colocada, um caminhão com soldados passou. Um soldado tinha um artefato nas mãos. O Major Bouças informou que o Exército não vai retirar faixas. “Não interferimos na vida das pessoas. Garantimos que a lei seja cumprida”. No inÃcio da noite, manifestantes protestaram na Estrada do Itararé.
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou inquérito para investigar a atuação dos militares. Duas procuradoras foram ao complexo nesta segunda-feira e conversaram com o general Cesar Leme Justo, comandante da Força de Pacificação.
Moradores contaram, durante o protesto, que passam por humilhações de soldados, que interferem até nas festas de aniversário. ¿Temos toque de recolher e pedimos autorização para tudo¿, reclamou outro morador
“A Secretaria de Segurança se precipitou ao colocar o Exército no Alemão. O Exército tem outra função. Tiveram treinamento para entrar na favela, mas não sabemos até que ponto. As UPPs cumprem bem seu papel no que diz respeito ao controle territorial armado, mas falta canal permanente de interlocução com os moradores”, analisou o sociólogo Inácio Cano.
Armas não letais ferem moradores
No domingo, militares usaram tiros de borracha, bombas e spray de pimenta contra moradores. Uma mulher atingida mostrou o ferimento nas costas. A confusão começou, segundo a Força de Pacificação, quando dez militares tentaram abordar dois homens em atitude suspeita na localidade Alvorada.
“Não sei dizer o que faziam, mas a comunidade impediu a detenção dos dois. Por volta das 17h, eles assistiam a um jogo de futebol bebendo. Bebem muito e cometem excessos”, explicou o Major Bouças, oficial de Relações Públicas da Força de Pacificação.
Moradores contaram que os soldados chegaram atirando e jogando bombas. Segundo alguns, traficantes expulsos deram ordens para que, em caso de problemas, eles partissem para o confronto com o Exército.
Pedras e garrafas nos PMs
Na Cidade de Deus, a confusão começou na Praça dos Apartamentos, após um grupo que estava no baile funk jogar pedras e garrafas nos PMs da UPP, na madrugada desta segunda-feira. O sargento André Luiz foi ferido por uma pedra e vidro da sede foi quebrado. Dois moradores teriam sofrido ferimentos leves. PMs contaram que foram separar um briga.
Comandante das Unidades de PolÃcia Pacificadora, coronel Robson Rodrigues garantiu que não é preciso mudar o policiamento. Após problema no Morro do Turano, equipes passaram a filmar ações nas comunidades pacificadas. “Adquirimos armas não letais e dialogamos com a comunidade. Não podemos achar que está tudo errado”, disse. O oficial prometeu que não acabará com o baile e vai analisar imagens para identificar agressores.
Exército abre inquérito sobre conflito no Alemão
Ministério Público também investiga se houve excesso na ação de militares
Para comandante da Força de Pacificação, confronto pode ter sido reação a apreensão de caminhões do tráfico
MARCO ANTÔNIO MARTINS
DO RIO
Exército e Ministério Público Federal abriram inquéritos sobre participação de militares no confronto com moradores, no domingo à tarde, no complexo do Alemão (zona norte do Rio). Ao menos 12 pessoas, sendo dois soldados da Força de Pacificação, ficaram feridos. O Exército quer saber se houve excessos dos militares na abordagem a um morador. Ele teria começado a xingá-los durante a transmissão de um jogo de futebol pela TV. A discussão cresceu e resultou no confronto entre 80 soldados e cerca de 20 moradores.
Elaine de Souza Morais, 17, voltava para casa com o filho, de três anos, quando ouviu gritos e tiros. “Quando vi, tinha sido atingida na boca por uma bala de borracha.” Atingido no pescoço, o almoxarife Wilson Alves, 31, disse que os soldados ameaçaram levar até o quartel quem estivesse com marca da violência.
Para o comandante da Força de Pacificação, general Cesar Leme Justo, o conflito pode ter sido reação a uma operação, na semana passada, para reprimir a venda ilegal de botijões de gás na favela.
Foram apreendidos dois caminhões que seriam do traficante Marcinho VP, detido no presÃdio de segurança máxima de Campo Grande (MS). “Eles esperaram uma oportunidade para reagir.”
O general passou a manhã reunido com as procuradoras Gisele Porto e Aline Caixeta, que decidiram abrir inquérito.
Na madrugada de ontem, moradores e policiais militares da UPP Cidade de Deus (zona oeste) entraram em confronto após um baile funk. Na versão de moradores, duas pessoas brigavam quando os PMs chegaram. Um deles atirou para o alto e outro jogou uma bomba de efeito moral, ferindo um morador. Moradores reagiram atirando pedras.
Regulação é fonte de confrontos em favelas com UPPs
DO RIO
Os episódios no Alemão e na Cidade de Deus foram versões mais violentas de um conflito sobre a regulação do cotidiano nas 17 comunidades com UPPs.
Em tese, cabe aos policiais negociar nas favelas, onde vigoravam as regras do tráfico, a implementação de leis e normas, como a lei do silêncio; autorização para festas públicas; e o fim da exploração ilegal de serviços como gás e luz. Na prática, a arbitrariedade da polÃcia e a resistência dos moradores resultam em confrontos. “Você tem choque cultural, autoritarismo de parte a parte, muitas dimensões que produzem o mal-estar”, diz o sociólogo Michel Misse, da UFRJ.
Ricardo Henriques, da UPP Social, fala em “processo de aprendizado mútuo”: moradores desconfiam da polÃcia e não veem vantagem em aderir à s regras da cidade; PMs identificam funk com tráfico e toda aglomeração de jovens como riscos à ordem.
(CLAUDIA ANTUNES)