
Após noite de confronto, policiamento foi reforçado no Complexo do Alemão nesta quarta-feira (7)
Uma adolescente de 15 anos morreu atingida por um tiro na cabeça durante o tiroteio ocorrido na noite de terça-feira (6) no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro. A informação sobre a morte de Ana Lúcia da Silva foi confirmada por sua tia Carla da Silva, embora nenhum órgão oficial confirmasse o episódio até a manhã desta quarta-feira (7). Segundo Carla, a adolescente chegou a ser socorrida, mas teve morte cerebral declarada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Penha.
Um intenso tiroteio causou pânico entre os moradores do Complexo do Alemão aproximadamente entre as 20h e 23h. Foram usadas granadas e armas de grosso calibre, além de balas traçantes, visÃveis no escuro. Segundo a Força de Pacificação do Exército, inicialmente ocorreu um confronto entre traficantes da comunidade do Adeus, da Serra da Misericórdia e da Grota.
De acordo com moradores, os criminosos também teriam se voltado contra os militares que ocupam o complexo e que teriam ocorrido confrontos localizados entre a Força de Pacificação e os criminosos. O Exército não confirmou esse enfrentamento.
Para evitar que passageiros fossem atingidos por tiros, o teleférico recém-inaugurado no morro deixou de funcionar. Vias de acesso foram interditadas pelo Exército, que recomendou a moradores que não voltassem para casa enquanto houvesse tiroteio. Estabelecimentos comerciais também fecharam as portas.
Dois blindados do Exército e um do Batalhão de Operações Especiais (Bope), da PolÃcia Militar, foram levados ao complexo. A tropa que ocupa o morro, integrada por cerca de 1.800 pessoas, foi reforçada por mais cem soldados.
Até o fim da noite de ontem, também havia informações sobre uma pessoa ferida: um homem de 47 anos, morador do morro, foi atingido por estilhaços de granada quando tentava voltar para casa. Ele recebeu atendimento no Hospital Estadual Getúlio Vargas e, segundo a PM, não corre risco de morte.
Tensão entre moradores e força de segurança aumenta
Antes de ataque do tráfico, grupo volta a entrar em confronto com militares
População acusa Exército de represália; força diz que confusão começou após operação contra mototaxistas
DIANA BRITO
MARCO ANTÔNIO MARTINS
DO RIO
Moradores e militares da Força de Ocupação do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, se enfrentaram novamente na segunda-feira à noite, no mesmo local onde, no domingo à tarde, um conflito deixou 12 pessoas feridas -entre elas, dois soldados. O novo confronto agravou ainda mais o clima de tensão por que passa a região desde o domingo.
Moradores acusam os militares de terem apagado as luzes da rua antes de começar a disparar balas de borracha contra a população. Seria uma represália, dizem, ao confronto anterior. O Exército nega.
“Aconteceu no mesmo lugar da primeira confusão. Eles entraram na rua 2, apagaram as luzes e começaram a procurar todo mundo que deu entrevista”, disse uma moradora que não quis se identificar.
O Exército afirma que, pouco antes da confusão, houve uma ação contra mototaxistas. Oito foram presos. Segundo os militares, revoltados, outros mototaxistas estimularam moradores a entrar em confronto com a Força de Ocupação.
Alguns incendiaram pedaços de madeira no cruzamento entre as avenidas Itaoca e Itararé, que levam ao Alemão. “Nossa presença quebra toda a sorte de negócios irregulares. Imagina os valores que circulavam aqui antes”, disse o general Cesar Leme, comandante da Força de Pacificação.
Amanhã, três promotores militares vão visitar o local. O comando da Força também pretende ampliar as reuniões com lÃderes comunitários.
“A relação com oficiais é boa, mas jovens recrutas estão desrespeitando moradores e colocando em risco a pacificação”, diz José Júnior, coordenador da ONG AfroReggae.
Segundo ele, muitos moram em áreas dominadas por facções rivais ao Comando Vermelho, que dominava o Alemão, e fazem questão de dizer isso aos moradores.
De manhã o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) afirmou que os problemas recentes são resultado de “resquÃcios de um viés violento” de uma minoria de moradores das favelas e da própria polÃcia.
ANTÔNIO GOIS
DO RIO
Para José Júnior, coordenador do AfroReggae, ONG que atua em várias favelas do Rio, jovens recrutas despreparados estão colocando em risco o processo de pacificação do Alemão.
Segundo ele, moradores se queixam de que alguns desses jovens fazem questão de dizer que moram em favelas dominadas por facções rivais daquela que atuava no Alemão, o Comando Vermelho.
Leia a entrevista:
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Folha – Quais queixas de moradores chegam a vocês?
José Júnior – A relação com os oficiais do Exército é muito boa, mas há um grupo de jovens recrutas, com 18 ou 19 anos, complemente despreparados.
Estão desrespeitando as pessoas, abordando de maneira truculenta, mexendo com mulher de morador. Estão preparados para uma guerra, mas lá dentro já não tem mais guerra. Moradores são tratados com desconfiança, como inimigos.
Alguns desses garotos [recrutas do Exército] fazem questão de falar de que favela são. Dizem que moram em áreas controladas por facções rivais da que dominava o Alemão [o Comando Vermelho]. Estão externalizando de maneira ignorante e estúpida um ódio entre facções num lugar já pacificado, que é exemplo.
Os moradores continuam acreditando na pacificação e têm muitas esperanças. Não é justo que esses garotos despreparados ponham tudo a perder. Uma das meninas que tomou tiro de borracha na boca está ameaçada.
O desrespeito é total. O Exército diz que vai se manifestar, mas não se manifestar. Diz que vai apurar, mas não apura. O problema no Alemão é pequeno, mas estão permitindo que aumente para algo muito pior.
Há o risco de repetirmos o que aconteceu no morro da Providência, em que o despreparo de um tenente resultou na morte de três jovens que foram levados como castigo para um morro controlado por facção rival?
Não acho que vai acontecer o mesmo, até porque, no caso do Alemão, está sendo tudo denunciado agora. Mas as pessoas podem se revoltar ainda mais e, aà sim, maus elementos, entre aspas, que querem fazer baderna e aproveitar a situação, podem sim se infiltrar em manifestações populares. Meu receio é de que utilizem isso de maneira indevida. É bom lembrar que também no meio polÃtico nem todo mundo está satisfeito com o projeto do governador.