
COLETIVO DAR
Acuada diante de um inusitado problema – a realização de um amplamente divulgado festival de cultura canábica dentro da universidade – a reitoria da PUC não hesitou em suspender as atividades do campus, em nome de uma suposta ordem, numa verdadeira medida de “estado de exceção”, que usa a véspera do evento como “emergência” para trancar os portões da Universidade, que deveria estar aberta à comunidade. Seguindo a linha da Fundação que a comanda, e portanto do que as igrejas geralmente fazem mesmo diante das injustiças, a PUC presta esta triste homenagem à recém falecida Nadir Kfouri e simplesmente estará fechada nesta sexta. Assim não tem que responder à polÃcia ou mesmo se responsabilizar quanto a uma eventual invasão por parte dos agentes da lei.
O interessante da história não é que mais uma vez a livre manifestação do pensamento é coibida e tolhida previamente em São Paulo, mas o movimento que gerou o fato. As pessoas parecem estar cada vez mais em rota de colisão com a hipocrisia reinante e governante de uma sociedade que vende suas mulheres em nome da liberdade mas não aceita o livre decidir sobre cada corpo. As pessoas estão, cada vez mais, saindo do armário.
Como toda opressão gera resistência, cria-se o orgulho em defesa de um comportamento que no mundo ideal não é motivo de se bater no peito nem de se envergonhar, é algo rotineiro e parte do cotidiano, assim como se alimentar ou se enamorar. Assim como a capoeira proibida no inÃcio do século XX converteu-se em instrumento de luta e orgulho para o povo preto brasileiro, também cada vez mais pessoas se utilizam do seu direito de serem o que quiserem como arma contra o conservadorismo do Poder e da Ordem.
E quem é que diz que não se pode fazer um festival canábico? Na universidade ou na rua, por que não? Ou a polÃcia e a justiça não sabem que há momentos em que se faz consumo coletivo de substâncias ilÃcitas – o popular “aglomerou legalizouâ€? Na Virada Cultural pode, o que não pode é deixar explÃcito? E as festas “open barâ€, se está preocupada com o abuso de drogas por que a PUC não se preocupa com isso então?
O que está por trás de uma aparentemente ingênua ou irresponsável festa é também um sincero e debochado grito de não, um pequeno levante contra a hipocrisia e o cinismo como instrumentos polÃticos. Qualquer que seja seu conteúdo, objetivo e caráter, o festival canábico é um exercÃcio da livre expressão, reunião e manifestação do pensamento, como são outros tantos festivais que se reivindicam “culturais”. O mesmo Estado que considera o tabaco mortal e altamente prejudicial, mas assume que não pode fazer nada a não ser colocar imagens nos maços, não pode conviver com o consumo voluntário e consciente de maconha, cocaÃna ou o que seja?
O que estava proposto para acontecer não difere muito de diversos outros momentos de confraternização da juventude, seja nas universidades, nos bailes funks ou nos parques. Consumo de drogas sim, legais e ilegais, na maioria das vezes autorregulado, algumas vezes problemático, claro. Não é fechando as portas para o que se trata como problema que ele se resolve ou desaparece, e o pior é que todos envolvidos sabem muito bem disso. Ou a PUC acha que não haverá mais “drogas†no campus? E a polÃcia, acha que as pessoas não estão consumindo, ou que a repressão ao varejo acaba com o problema? E a Justiça também não sabe que censura prévia é inconstitucional? A PUC vai suspender as atividades toda sexta-feira que identificar um problema?
Repressão e hipocrisia, sem novidade. A não ser que cada vez mais gente, por toda a parte, está ficando de saco cheio. Hoje pavão, amanhã espanador: de tanto balançar, pro proibicionismo cair não vai demorar. Aà a rua vai virar PUC – legalize.