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Outubro 10, 2011

Carta Capital: O Rio está pacificado?

Carta Capital

Edgard Catoira

O governador Sergio Cabral, do Rio, sempre foi um político inteligentemente oportunista. Há três anos, a partir de uma experiência positiva do coronel Gileade Albuquerque, então comandante do 2º Batatalhão da PM, no bairro de Botafogo, que garantiu a segurança da favela Dona Marta instalando um posto da PM no morro, Cabral assimilou a (boa) ideia. A imprensa, claro, aplaudiu a ação da PM, o que fez o governador resolver transformá-la em plano de governo, batizando a novidade como Pacificação do Rio, com a criação de UPPs – Unidades de Polícia Pacificadoras – para todos os morros da cidade.

O sucesso de mídia foi imediato. Cabral se tornou o herói que acabaria com a violência na Cidade Maravilhosa.

Diversos morros da Zona Sul foram pacificados. Sem tiros ou balas perdidas, UPPs foram instaladas em comunidades – palavra politicamente correta para ser usada em lugar de “favela” – Copacabana e Ipanema. Assim foi na Ladeira dos Tabajaras, Pavão Pavãozinho, Cantagalo. E culminou com a tomada do violentíssimo morro da Vila Cruzeiro, com ajuda de Marinha e Exército. O mundo inteiro comemorou as imagens da correria dos bandidos, armados, para fugir da retomada do território pelas “forças aliadas” comandadas pelo heróico pacifista e legalista governador do Rio.

Depois desse enfrentamento televisionado, como num verdadeiro “acordão”, o governador avisava a imprensa sobre a tomada de outras áreas perigosas. Marcava dia e hora. A bandidagem, não menos esperta, deixava o caminho aberto e, sempre sem balas perdidas, a cidade, para alívio da população, está sendo pacificada. Ainda haverá muito para que a cidade toda fique livre de milícias e diferentes facções de traficantes, todos violentíssimos, que ainda têm que ser removidos principalmente na Zona Oeste da Cidade.

E, assim, a cidade começa a dar a sensação de bem estar e tranqüilidade que população e turistas – esperados para os próximos grandes eventos esportivos – possam usufruir da beleza natural do Rio e da alegria natural do carioca.

Assim, com farta pirotecnia merecida pelos guerreiros conquistadores, verdadeiros Cruzados do Bem, Sergio Cabral já pode ser considerado o grande exterminador do mal em terras fluminenses.

Tem buraco mais embaixo

Sem querer ser um derrubador de boas esperanças, pisando em solo firme de informação, é sempre bom conversar com guardas municipais, PMs, autoridades amigas que trabalham com Segurança Pública e podem falar a verdade em “off”. E este site fez isso: conversou informalmente com pessoas do meio, sem holofotes, lentes ou testemunhas, no máximo com um copo de cerveja em mesa de bar.

Cabral, que inaugurou teleférico no Complexo do Alemão ao lado de Lula (em 2010), tornou-se o herói que acabaria com a violência na Cidade Maravilhosa. Foto: Ricardo Stuckert/PR

A instalação das UPPs é uma realidade. O que não aparece é que os traficantes acabaram com os pontos de vendas nos morros e criaram as “Esticas”, no asfalto, móveis ou fixas, pontos instalados em estabelecimentos que servem como fachadas. Apesar de não acabar com a comercialização, o governo estadual continua de parabéns por ter acabado com os centros armados de traficantes. No morro – e isso os policiais das UPPs é que sabem – ainda ficam os estoques onde os distribuidores se abastecem. São casas isoladas no morro, sem movimentação e sem aparato de segurança, o que acaba com combates de rivais e enfrentamento com autoridades de Segurança. Tudo na paz.

O arsenal bélico dos traficantes, seguindo o modelo das cartilhas de guerrilha urbana, está armazenado em pequenas quantidades em locais que só os integrantes dos grupos conhecem, seja morro ou asfalto. É apenas a garantia para ser ativado em caso de futura necessidade. Já as armas dos milicianos têm esconderijos oficiais, nos coldres de policiais que pertencem às milícias.

Esse fato apareceu agora, com a execução da juíza Patrícia Acioli, do município de São Gonçalo, que insistia em exterminar as milícias de sua área de atuação. O delegado de Homicídios, Felipe Ettore, durante as investigações, chegou a um PM, que acabou fazendo uma denúncia premiada – aquela que, na Justiça, vai beneficiar a sentença do colaborador – e tudo acabou com um escândalo: o mandante do crime era o comandante do Batalhão da PM de São Gonçalo, um coronel preparadíssimo para enfrentar o crime, com passagem pelo respeitado Bope, Batalhão de Operações Especiais, elite da elite da PM.

A imagem da PM desabou. O comandante da PM se demitiu. No seu lugar assumiu o coronel Erir Ribeiro Costa Filho, conhecido pelos policias como “casca grossa, linha dura”.  E ele deu provas disso quando, em 2003, bateu de frente com o deputado Chiquinho da Mangueira, que pediu a ele que para “pegar mais leve” no combate ao tráfico do morro da Mangueira. Por essa recusa, ele foi afastado do comando e passou a ser considerado maldito pelo governo Garotinho.

Sua primeira providência foi mudar os comandos de Batalhões da PM, determinando que os novos titulares não levassem consigo para os quartéis de comando os guardas de áreas onde estavam atuando. Para evitar a formação de “turmas”, digamos assim, como a quadrilha de 11 PMs que foram presos no caso do assassinato da juíza de São Gonçalo.

Na busca da Paz, fim das castas ou retorno ao Império

Para um bom entendimento sobre a vida de um policial, seu modo de pensar e agir, é importante conversar longamente com um velho PM, que já está acima do bem e do mal. Só ele pode contar as frustrações e humilhações diárias de um PM. E, claro, as consequências psicológicas desses homens.

No Rio, com um salário baixíssimo, um PM é considerado pelos militares como um policial “uniformizado” e não “fardado”, por não ter formação específica de um soldado de Marinha, Exército ou Aeronáutica. Isto é, sofrem forte preconceito de militares.

A Polícia Civil, por seu lado, trabalha lado a lado com a PM. Mas é composta por profissionais com formação na área do Judiciário que podem, inclusive prender oficialmente um cidadão pego em infração. O PM multa ou encaminha para o delegado. Resumindo, também são inferiorizados pelos parceiros da Polícia Civil.

Dentro da corporação, e isso é terrível, também existem castas que podem ser resumidas em duas: os oficiais, “que comem o peito e as coxas da galinha”, e os praças, “comedores de pescoço, asas e pés do frango”. Os oficiais, como mostram as imagens que os próprios PMs fazem de si, usam os “malas”, ou praças, para fazerem os serviços menores. Inclusive os pouco ortodoxos para um policial, como recolher o resultado dos favores ilícitos concedidos. Assim, os malas não têm benefícios, mas conhecem os desvios de conduta de seus superiores. Não dá para dizer que as duas classes se amem.

É exatamente por isso que, como aconteceu em São Gonçalo, quando um comandado é pego em infração, com grande prazer de sua alma, “entrega” seu superior e ainda tem o benefício da delação premiada. Que, dessa forma, também passa a ser uma vingança premiada contra seus algozes, os oficiais que mandam os comandam.

Todos esses exemplos apareceram com a queda do comandante que mandou matar a juíza. Mas, só veio a público porque houve, na verdade, um atentado das milícias ao Judiciário, um dos Poderes de nossa democracia.

Um PM disse que só não aparecem centenas casos no dia a dia porque a maioria das vítimas fazem parte do “Três Ps (preto, puta e pobre)”, também na gíria policial.

Como seus antecessores, o novo comandante da PM conhece todas essas diferenças dentro da corporação. Quando ele proíbe que os indicados para comandar batalhões levem suas equipes, aí, sim, pode estar dando início a uma nova fase de uma Polícia Militar competente. E, claro, estimular seus integrantes com salários e equipamentos compatíveis com a dignidade dos policiais.

A este respeito, um PM conta que o uniforme completo e equipado de um guarda de Nova York custa U$ 45 mil. E brinca: “aqui, com um equipamento desses, o policial vai ter mais é que vender tudo para garantir uma vida mais confortável à sua família”.

Para se entender a polícia fluminense, é preciso entender sua origem

Feitos esses ajustes, talvez dê para se pensar em um Estado mais seguro.

Ou retornar para a época do Reinado Brasileiro, quando D. João VI, esperto monarca português, constatou que seus súditos eram “coronéis”, donos de terras em torno da cidade. Percebendo que cada “coronel” tinha sua milícia própria para defender suas terras e seus interesses, ele os chamou e propôs fundar a Guarda Real de Polícia, GRP, em 1809. Esses dados aparecem até hoje no brasão da corporação. O esperto D. João conseguiu, sem dinheiro, montar a guarda, fazendo de cada “coronel” um comandante e, todos, defendendo a Coroa.

Caso não se moralize o meio de campo da instituição, seguramente ela retornará às origens, defendendo, como ainda fazem, organizando-se em milícias que defendem interesses pouco ortodoxos de cada local, ganhando um dinheirinho a mais para compensar o soldo oficial, e portando a carteira de “autoridade” emitida pelo Governo legal do Estado.

Isso só será viável se Cabral for menos à sua adorada Paris e, quando em terras fluminenses, passar a alardear menos e fortalecer, de fato, a Segurança Pública do Rio.

Aí, sim, vamos, orgulhosamente parafrasear: “In Cabral we trust”.

 

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