• Home
  • Quem somos
  • A razão entorpecida
  • Chame o DAR pra sua quebrada ou escola
  • Fale com a gente
  • Podcast
  • Quem somos
  • A razão entorpecida
  • Podcast
  • Chame o DAR pra sua quebrada ou escola
  • Fale com a gente
Novembro 28, 2011

A Neurobiologia do medo e a política de drogas, por Eduardo Schemberg

Blog da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento

Por eduardo schenberg | 22 de novembro de 2011

É provável que uma das áreas mais prósperas da neurociência atualmente seja a neurobiologia do medo. E uma das políticas menos prósperas de nossos tempos é a proibição arbitrária e intolerante de algumas drogas. E há entre ambas um elo direto, costurado por esta emoção que é crucial para a sobrevivência.

De Darwin e seu livro “A expressão das emoções nos homens e nos animais” no final do século XIX até Joseph LeDoux e o “Cérebro Emocional” no final do século XX, muito se escreveu, estudou e pesquisou sobre o tema. E muito justificadamente. O medo é uma das emoções centrais à sobrevivência de um organismo e, por conseqüência, também de grupos e da própria espécie. O medo é central na reação de “luta ou fuga”, onde um animal deve escolher a resposta certa quando se depara com um perigo, sendo o exemplo mais comum um predador. Um único erro pode ser fatal. Logo, é um sistema cerebral rápido e eficiente, que tem grande influência comportamental. Mas nós humanos há muito vivemos de forma que praticamente nunca passamos por esta situação específica. Não encontramos leões com a boca aberta no farol da esquina. Ainda assim, o medo desempenha papel central em nossas vidas e em nossa cultura. Como nos lembra LeDoux em seu livro, a quantidade de palavras que temos para descrever o conceito é muito ilustrativa de sua importância em nossas vidas: alarme, susto, preocupação, apreensão, temor, ansiedade, desespero, pânico, horror, entre muitas outras opções. Ou seja, nós enfrentamos perigos diferentes, mas não menos numerosos ou significativos, do que animais vivendo em ambientes selvagens.

E um dos maiores medos que temos é da violência: assaltos, roubos, sequestros e, claro, tráfico de drogas. A guerra às drogas chegou a um ponto tão assustador – e ineficiente, já que a disponibilidade de drogas nunca foi tão grande – que a maior parte da violência urbana atual está relacionada a drogas e a sua repressão pela polícia. Assim, escutamos diariamente histórias escabrosas envolvendo traficantes, viciados, policiais e afins. O medo de 50 anos atrás, quando proibiram algumas das drogas, só aumentou, e hoje é difícil escapar destas notícias, agora onipresentes nas TVs finas e modernas que estão até em algumas bancas de jornal e em quase todos os restaurantes, lanchonetes e bares. Só que o sistema eficiente de luta ou fuga, resultado de bilhões de anos de evolução, também tem seus limites. Se por um lado ele te protege do perigo, por outro pode se tornar um problema, principalmente quando super estimulado: reações exageradas no sistema cerebral responsável por várias das sensações da lista de LeDoux – centralizado numa estrutura chamada amígdala e suas interconexões na vasta rede neural do cérebro – são a base de vários distúrbios psicológicos e psiquiátricos, como transtornos de ansiedade, fobias, pânico e estresse pós-traumático.

Se por um lado a história da proibição pode ter começado como uma resposta supostamente adequada a um medo real – substâncias psicoativas que podem causar vício, reações violentas e em alguns casos até mesmo a morte – a outra face da moeda revela que a reação da maioria está desproporcional. Após cinco décadas de repetições quase diárias de informações trágicas sobre drogas e sua proibição, super estimulando nossas amígdalas, não estamos mais com medo das drogas, estamos fóbicos. E fóbico é alguém que tem uma reação muito exagerada a um estímulo que é ameaçador, mas nem tanto quanto parece ao fóbico. Em casos graves, a fobia leva a comportamentos irracionais, e é o que assistimos recentemente na maior universidade do Brasil, por exemplo. Por causa de três estudantes e seus cigarrinhos de Cannabis, a USP virou alvo de ação policial militarizada desproporcional e inadmissível num país democrático. E os estudantes, acuados e assustados, também revelam sua fobia da repressão policial constante. O resultado é lamentável, e já conta com mais de 70 alunos presos, centenas de processos e uma greve geral decretada em assembléia com cerca de 2 mil estudantes. A situação sequer faz sentido do ponto de vista legal, dando ainda mais enfoque à irracionalidade que está em jogo na fobia de nossa sociedade com as drogas: segundo o artigo 28 da lei 11.343/06 o porte de drogas para consumo pessoal não é passível de detenção, pois não oferece danos a terceiros. Ou seja, se nossa atual reação de medo das drogas fosse adequada, se a nossa amígdala coletiva estivesse saudável, três pessoas teriam recebido advertência sobre os efeitos da droga e possivelmente estariam prestando serviços à comunidade e teriam de comparecer a cursos ou programas educativos, enquanto a USP e o resto da sociedade seguiriam seu rumo normal. Mas como acontece nas fobias, pânico e transtornos do estresse, a reação é muito exagerada – nossa amígdala coletiva está inchada, hiperativa, febril – gerando mais danos e piorando ainda mais o quadro. Após esse episódio, as reações que podem se observar nas redes sociais são, na maioria, igualmente de caráter fóbico, incitando intolerâncias várias e comportamentos antiéticos de apoio à violência da PM contra os jovens, ou destes contra a universidade. O objeto do medo coletivo – nesse caso a maconha – certamente não oferece mais perigo que esta briga toda. Após mais de quarenta anos de desinformação, sensacionalismos e as famosas “páginas de sangue” sobre esta guerra que está fora de controle, nossa amígdala social está completamente disfuncional e desorientada. Outro indício desta enfermidade coletiva é que nesta semana, anúncios de um novo livro que visa tratar o assunto de um ângulo sério e diferente daquele dos últimos 50 anos foi recusado pelo metrô de São Paulo, numa atitude difícil de justificar. Se notícias da guerra estampam revistas e jornais diariamente há décadas, porque um livro chamado “O fim da Guerra” (de Denis Russo Burgierman, editora Leya) não pode sequer ser propagandeado pelos meios usuais? Podemos falar a vontade da violência, mas não podemos discutir alternativas para um status quo mais pacífico?

Talvez a ironia final seja que a maconha, de longe a droga ilícita mais consumida no mundo, possui baixa toxicidade, baixo potencial ao vício e efeitos claros e comprovados na diminuição de muitos dos problemas relacionados a ansiedade, estresse e medo, atuando inclusive na amígdala e suas conexões cerebrais. Portanto, a planta da qual estamos fugindo como loucos poderia ser, se usada moderada e adequadamente, parte da solução por um cérebro coletivo mais equilibrado.

Eduardo Schenberg, Doutor em Neurociências pela USP, atualmente pesquisador da UNIFESP.

Apesar da atitude absurda do metrô, o livro será lançado normalmente no dia 28/11 as 19h

Comments

comments

Nos ajude a melhorar o sítio! Caso repare um erro, notifique para nós!

Recent Posts

  • NOV 26 NÓS SOMOS OS 43 – Ação de solidariedade a Ayotzinapa
  • Quem foi a primeira mulher a usar LSD
  • Cloroquina, crack e tratamentos de morte
  • Polícia abre inquérito em perseguição política contra A Craco Resiste
  • Um jeito de plantar maconha (dentro de casa)

Recent Comments

  1. DAR – Desentorpecendo A Razão em Guerras às drogas: a consolidação de um Estado racista
  2. No Grajaú, polícia ainda não entendeu que falar de maconha não é crime em No Grajaú, polícia ainda não entendeu que falar de maconha não é crime
  3. DAR – Desentorpecendo A Razão – Um canceriano sem lar. em “Espetáculo de liberdade”: Marcha da Maconha SP deixou saudade!
  4. 10 motivos para legalizar a maconha – Verão da Lata em Visitei um clube canábico no Uruguai e devia ter ficado por lá
  5. Argyreia Nervosa e Redução de Danos – RD com Logan em Anvisa anuncia proibição da Sálvia Divinorum e do LSA

Archives

  • Março 2022
  • Dezembro 2021
  • Setembro 2021
  • Agosto 2021
  • Julho 2021
  • Maio 2021
  • Abril 2021
  • Março 2021
  • Fevereiro 2021
  • Janeiro 2021
  • Dezembro 2020
  • Novembro 2020
  • Outubro 2020
  • Setembro 2020
  • Agosto 2020
  • Julho 2020
  • Junho 2020
  • Março 2019
  • Setembro 2018
  • Junho 2018
  • Maio 2018
  • Abril 2018
  • Março 2018
  • Fevereiro 2018
  • Dezembro 2017
  • Novembro 2017
  • Outubro 2017
  • Agosto 2017
  • Julho 2017
  • Junho 2017
  • Maio 2017
  • Abril 2017
  • Março 2017
  • Janeiro 2017
  • Dezembro 2016
  • Novembro 2016
  • Setembro 2016
  • Agosto 2016
  • Julho 2016
  • Junho 2016
  • Maio 2016
  • Abril 2016
  • Março 2016
  • Fevereiro 2016
  • Janeiro 2016
  • Dezembro 2015
  • Novembro 2015
  • Outubro 2015
  • Setembro 2015
  • Agosto 2015
  • Julho 2015
  • Junho 2015
  • Maio 2015
  • Abril 2015
  • Março 2015
  • Fevereiro 2015
  • Janeiro 2015
  • Dezembro 2014
  • Novembro 2014
  • Outubro 2014
  • Setembro 2014
  • Agosto 2014
  • Julho 2014
  • Junho 2014
  • Maio 2014
  • Abril 2014
  • Março 2014
  • Fevereiro 2014
  • Janeiro 2014
  • Dezembro 2013
  • Novembro 2013
  • Outubro 2013
  • Setembro 2013
  • Agosto 2013
  • Julho 2013
  • Junho 2013
  • Maio 2013
  • Abril 2013
  • Março 2013
  • Fevereiro 2013
  • Janeiro 2013
  • Dezembro 2012
  • Novembro 2012
  • Outubro 2012
  • Setembro 2012
  • Agosto 2012
  • Julho 2012
  • Junho 2012
  • Maio 2012
  • Abril 2012
  • Março 2012
  • Fevereiro 2012
  • Janeiro 2012
  • Dezembro 2011
  • Novembro 2011
  • Outubro 2011
  • Setembro 2011
  • Agosto 2011
  • Julho 2011
  • Junho 2011
  • Maio 2011
  • Abril 2011
  • Março 2011
  • Fevereiro 2011
  • Janeiro 2011
  • Dezembro 2010
  • Novembro 2010
  • Outubro 2010
  • Setembro 2010
  • Agosto 2010
  • Julho 2010
  • Junho 2010
  • Maio 2010
  • Abril 2010
  • Março 2010
  • Fevereiro 2010
  • Janeiro 2010
  • Dezembro 2009
  • Novembro 2009
  • Outubro 2009
  • Setembro 2009
  • Agosto 2009
  • Julho 2009

Categories

  • Abre a roda
  • Abusos da polí­cia
  • Antiproibicionismo
  • Cartas na mesa
  • Criminalização da pobreza
  • Cultura
  • Cultura pra DAR
  • DAR – Conteúdo próprio
  • Destaque 01
  • Destaque 02
  • Dica Do DAR
  • Direitos Humanos
  • Entrevistas
  • Eventos
  • Galerias de fotos
  • História
  • Internacional
  • Justiça
  • Marcha da Maconha
  • Medicina
  • Mídia/Notí­cias
  • Mí­dia
  • Podcast
  • Polí­tica
  • Redução de Danos
  • Saúde
  • Saúde Mental
  • Segurança
  • Sem tema
  • Sistema Carcerário
  • Traduções
  • Uncategorized
  • Vídeos