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Janeiro 06, 2012

Vídeo: “Não temos pra onde ir”, dizem frequentadores da cracolândia sitiada

Vídeo da TV Folha

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=IOyiP80lJUY[/youtube]

Ruínas do crack

Folha de S.Paulo, 5/1/12

Escombros que eram habitados por usuários da droga revelam traços de paixão e vida familiar

Alessandro Shinoda/Folhapress
Prédio abandonado que servia de moradia para usuários na cracolândia
Prédio abandonado que servia de moradia para usuários na cracolândia

RAPHAEL SASSAKI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Objetos pessoais e frases escritas nas paredes dos prédios degradados que eram habitados por usuários de crack servem de registro do cotidiano na região da cracolândia, centro de SP.

O local é um conjunto do que sobrou das moradias que antes ocupavam a área. Escombros com vários recintos que até terça-feira eram usados como quartos -quase uma vila do crack.

As ruínas ocupam quase um quarteirão inteiro entre a rua Helvétia e as alamedas Dino Bueno e Cleveland.

Foi lá que a Polícia Militar retirou usuários de crack no início da operação.

Dentro da “vila”, uma grossa superfície de lixo em decomposição chega a formar montes de entulho com mais de um metro de altura, cheirando a urina e fezes. Na entrada, os visitantes são saudados: “Bem-vindos à Vila do Maquense”. Não há referência ao que isso significa.

Nos quartos vazios, fogões, bijuterias, escovas de dente, mochilas escolares, roupas dobradas e ursinhos de pelúcia são resquícios de uma rotina familiar vivida em meio a nuvens de mosquitos, ratos e baratas. “Bem-vindo ao nosso lugar de família”, diz outra inscrição na parede.

Agentes de limpeza que trabalham na área alertam para o risco de desabamento.

“Ontem uma parede caiu em cima de um rapaz. O certo seria demolir isso aqui”, reclama um gari que pediu para não ser identificado.

Entre sapatos velhos e aparelhos eletrônicos quebrados, ainda é possível encontrar indícios inesperados de uma vida literária. Um livro de Monteiro Lobato foi deixado em um sofá; no chão, um dicionário de inglês-português; na parede, uma frase de William Shakespeare (1564-1616): “O mundo é um palco”.

Há também ternura nas paredes da cracolândia. “Alex, você é um canalha, mas é o homem que conquistou meu coração”. Ao lado da frase, uma fotografia de dois amantes na parede idealiza um romance perfeito.

Em outro quarto, as palavras paz, amor e Deus, grafadas dentro de um coração.

Na entrada do cortiço, árvores natalinas feitas com cabos de vassoura e botas de plástico improvisam uma comemoração recente.

Embaixo, uma oração anônima escrita em bela caligrafia agradece a sorte: “Mais um dia nasceu e com a bondade de Deus estamos vivos”.

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