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Maio 05, 2012

Antropóloga Bia Labate critica documentário da NatGeo sobre Ayahuasca

A invenção do tabu: comentários sobre o episódio “Segredos da Ayahuasca” da National Geographic

Escrito por Bia Labate    , jornal Página 20

Venho por meio desta manifestar meu desagrado com relação ao documentário “Tabu: Segredos da Ayahuasca” produzido pela National Geographic e exibido em 28 de março de 2012.

Na contramão da história, em pleno 2012, após o reconhecimento definitivo do direito ao uso ritual e religioso da ayahuasca no Brasil por meio da Resolução n. 1 do CONAD de 2010 (2), e enquanto no Acre uma equipe pesquisa as raízes culturais da ayahuasca para pensar sua eventual inclusão no rico caldo do patrimônio cultural imaterial brasileiro (3), este documentário tenta reavivar velhos medos e estereótipos, sugerindo que estamos diante de graves riscos e perigos; um suposto “tabu” – palavra que da títuloà série.

Embora aparentemente correto, buscando abordar o fenômeno na sua totalidade – incluindo o uso entre indígenas, e pesquisas científicas a respeito da ayahuasca, como a dos psiquiatras Jaime Hallak e Dartiu Xavier da Silveira – o documentário, com efeito, nasce pré-pautado. Sua agenda é criar polêmica e justificar sua própria existência.

Baseado em uma narrativa confusa, entrecortada, e permeadao tempo todo por uma trilha musical que sugere perigo iminente, violência ou suspense, a reportagem trata de maneira homogênea duas religiões diferentes: o Santo Daime e a União do Vegetal. A última não recebe quase nenhum espaço e aparece completamente descontextualizada.

O aspecto mais evidente que denuncia a agenda implícita da matéria é inclusão do antigo caso de um jovem que se suicidou no Mapiá, na década de 90 – o Jambo. Quem conhece a história deste campo, sabe que este episódio foi amplamente debatido na década de 1990 durante a série de discussões que ocorreram entre representantes do governo, pesquisadores e líderes das religiões ayahuasqueiras, as quais resultaram na regulamentação do uso ritual e religioso da ayahuasca no Brasil. A reportagem ignora este fato; requenta o episódio sem apresentar nenhum dado novo, ou qualquer justificativa – essa parece ser a sua própria estratégia de criar polêmica. Para qualquer pessoa que leu o livro do padrasto de Jambo (4), fica claro seu espírito sensacionalista, permeado por contradições familiares e ressentimentos. A edição da National Geographic opta por incluir um depoimento em que o padrasto de Jambo, para além da triste narrativa dos fatos, evoca o velho argumento de que não é possível haver uma experiência religiosa genuína no Santo Daime, ou mesmo que esta e outras vertentes ayahuasqueiras não são de fato religiões bonafide – argumento certamente há muito superado.

A reportagem também aborda o caso do cartunista Glauco Villas Boas, assassinado por um ex-adepto do Santo Daime (5). Infelizmente, não apresenta nenhuma novidade jornalística em relação ao assunto. Não existe uma reflexão sobre a interação entre determinados medicamentos ou quadros psiquiátricos e consumo de ayahuasca, nem tampouco sobre a relação disto com eventuais crises de violência. Perdeu a oportunidade de contribuir a este importante debate.

O tema do consumo da ayahuasca por crianças é outra estratégia usada pela National Geographic para sustentar o eixo narrativo do suposto tabu. A reportagem, estrategicamente, não informa o telespectador acerca do debate público ocorrido em torno deste assunto, o qual foi amplamente discutido durante as reuniões do Grupo Multidisciplinar Ayahuasca (GMT) em 2006, que resultaram na Resolução de 2010 do CONAD. Esta segue a recomendação do GMT, optando pela permissão da participação de crianças nos rituais a partir do argumento da liberdade de ensino religioso pelos pais, inserindo corretamente a questão no âmbito do “poder familiar”.

Para ilustrar a suposta polêmica, a reportagem faz uso de um depoimento de Hamer Palhares, um psiquiatra sem publicações científicas sobre a ayahuasca (6) – o qual, aliás, recebe o maior tempo de todos os entrevistados no programa. Ele levanta dúvidas quanto a segurança do uso da ayahuasca por crianças do Santo Daime e da UDV a partir de em uma pesquisa inaugural sobre o consumo de ayahuasca por ratas prenhas (7).

Não me cabe aqui entrar no mérito da validade da aplicação direta de achados preliminares de um estudo pré-clínico onde ratas prenhas foram administradas altas doses de ayahuasca durante 14 dias seguidos em um laboratório, para o consumo humano da ayahuasca em rituais de determinadas tradições religiosas. Destaco apenas que, indagado sobre o fato do uso da ayahuasca entre crianças Ashaninka ocorrer normalmente, o psiquiatra rechaça a comparação com as crianças daimistas ou hoasqueiras, pois seriam contextos culturais diferentes. Resta a saber porque esta pesquisa com ratos serve de referência para os comportamentos de crianças não indígenas do Santo Daime e da UDV, mas não para crianças Ashaninka.

A reportagem não dá quase nenhum espaço para antropólogos ou cientistas sociais, em contraposição ao psiquiatra não-especialista (Palhares), e outros psiquiatras. A compreensão do consumo religioso ou não de drogas não deve se dar a partir de uma perspectiva exclusivamente biomédica, mas biopsicosocial. Trata-se também de um debate ético e humano (8). A mídia deve promover o respeito ao direito das minorias religiosas, e evitar fabricar falsas polêmicas com fins de ampliar seu apelo comercial.

(1) Doutora em Antropologia pela Unicampe Pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos – NEIP (www.neip.info). Para mais informações, ver: http://bialabate.net

(2) Resolução n. 01. 25 de Janeiro de 2010. Brasília: Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas.

(3) Lodi, Edson (2012).Inventário cultural da ayahuasca, por Edson Lodi. Disponível em: http://www.bialabate.net/wp-content/uploads/2009/07/Lodi_Inventário_Cultural_Ayahuasca_2012.pdf

(4) Mourão, J. (1995). Tragédia na seita do Daime. Rio de Janeiro: Editora Imago.

(5) Labate, Beatriz C (2010). Cobertura com muitos equívocos. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/cobertura-com-muitos-equivocos

(6) Ver: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4775051U4

(7) Oliveira CDR, Moreira CQ, de Sá LRM, Spinosa HS, Yonamine M. Maternal anddevelopmentaltoxicityof ayahuasca in Wistarrats. (2010). BirthDefects Res B DevReprodToxicol 89:207-212.

(8) Labate, Beatriz C. (2011). Consumptionof Ayahuasca byChildrenandPregnantWomen: Medical ControversiesandReligious Perspectives.  JournalofPsychoactiveDrugs, 43 (1): 27-35.

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