
Rachel Duarte
Incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou qualquer bem público ou privado poderá ser enquadrado como terrorismo no Brasil. Está prevista para esta quinta-feira (27) a votação do projeto de lei 728/2011 que tipifica o crime de terrorismo, ainda não regulamentado no paÃs. O texto será colocado em pauta em pleno contexto de sucessivos protestos nos estados brasileiro que estão sendo respondidos de forma repressiva pelo braço armado do estado. O motivo da urgência na aprovação, segundo a Comissão Mista que discute o tema no Congresso Nacional é a proximidade da Copa do Mundo de 2014. Especialistas avaliam como temerária a proposta, uma vez que aponta para os problemas da segurança urbana soluções com base na Lei de Segurança Nacional. “Isto é retroceder ao estado de exceçãoâ€, critica o professor da Faculdade de Direito de Santa Maria (FADISMA), Eduardo Pazinato.
A Constituição Federal prevê o crime de terrorismo, mas não estabelece pena nem tipifica as ações. Apenas a Lei de Segurança Nacional, editada na década de 1980, menciona o terrorismo, mas ainda com redação feita durante o regime militar. Porém, a minuta do texto em iminente aprovação no Congresso tem referência no texto da reforma do Código Penal e outros 43 projetos de lei, além de nove tratados, protocolos e convenções internacionais. Os crimes de terrorismo serão imprescritÃveis, com pena cumprida em regime fechado, sem benefÃcio de progressão e devem variar de 24 a 30 anos de cadeia.
Será considerado terrorismo ainda as ações que provoquem pânico generalizado praticadas por motivos ideológicos, polÃticos, religiosos e de preconceito racial, o que abre brecha para classificar como terroristas integrantes de movimentos sociais que cometerem crimes durante protestos públicos, acredita o coordenador do Núcleo de Segurança Cidadã da FADISMA, Eduardo Pazinato. “Este texto acompanha a tendência internacional de lei e ordem que propõem mais leis penais para resolver problemas contemporâneos. Por meio do discurso da pacificação, se aumenta a criminalização das pessoas e os encarceramentos. Utilizar o paradigma da segurança nacional para regular a segurança urbana proporcionará a criminalização dos movimentos sociais, uma vez que parte de um movimento de massa poderá ser entendida como terrorismoâ€, explica.
Ou seja, se a nova lei já estivesse em vigor, os manifestantes que invadiram as ruas do paÃs nos últimos dias contra o aumento da passagem e a postura repressiva da polÃcia militar poderiam ser enquadrados como terroristas em razão de algumas práticas excessivas. “Isto é temerário nesta conjuntura de grandes eventos no paÃs, em que inúmeras reivindicações populares surgem nas ruas. Está se preconizando mais uma vez um novo tipo penal para aumentar penas e reduzir direitos de minorias que serão enquadradas como praticantes de delitos, ao invés de buscar resposta para as cobranças da sociedade que não sejam por meio da criminalizaçãoâ€, avalia Pazinato.
“Repressão é resposta polÃtica dos governos contra a mobilização socialâ€, critica ativista gaúcho
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Para o ativista em Software Livre, Marcelo Branco, que esteve nos diversos manifestos realizados em Porto Alegre no último perÃodo, “o 1% que faz quebra-quebra nos protestos são pessoas marginalizadas pelo próprio estado e que cansaram de cobrar nas manifestações’. De toda forma, ele reconhece que tais práticas não podem ser toleradas pelas autoridades, porém ressalta que responder com mais autoritarismo é a pior escolha do estado. “A violência policial em relação aos protestos que estão acontecendo em Porto Alegre e em todo o paÃs não se justifica. Mesmo se concordamos ou não com a razão dos protestos, reivindicar pacificamente nas ruas é algo legÃtimo. A luta popular já deixou de ser em relação ao preço das passagens, é para cobrar a resposta dos governos a esta brutal repressão que se ergueu no paÃsâ€, fala.
Segundo o ex-coordenador da campanha da presidenta Dilma Rousseff na internet, as redes sociais possibilitaram uma nova organização social das lutas no mundo, que não pode ser controlada pelo estado. E esta, seria a principal razão de uma reação tão extrema por parte das autoridades. “Eles não tem lÃderes definidos, porque a organização é horizontal na rede, então, agem de forma generalizada com bombas, gás e balas de borracha contra civis desarmadosâ€, qualifica Branco.
Na visão do especialista em segurança pública Eduardo Pazinato, os chamados ‘novÃssimos movimentos sociais’, organizados pela internet, não tem a mÃnima semelhança com práticas terroristas para se justificar uma legislação neste sentido no paÃs. “O terrorismo é uma ação coletiva por um propósito de conjuntura onde se aplica a violência de forma deliberada. Não é o que estes movimentos pretendem. A dinâmica deles é uma luta democrática que não pode ser encarada com endurecimento penal máximo. Isto é uma atitude populista do governo que busca atingir o senso comum demonstrando ‘eficiência do estado’ para enfrentar a questão da violência. Isto é o que está declarado nesta votação em meio aos protestos. O que é equivocado, pois não há direito à segurança sem a garantia da segurança a outros direitos fundamentaisâ€, salienta.
“Intenção nunca foi criminalizar os movimentos sociaisâ€, diz deputado Vaccarezza
Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
O presidente da comissão de consolidação de leis e de dispositivos constitucionais, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), disse que a intenção da proposta não é e nem nunca foi criminalizar movimentos sociais. “Nossa Constituição é genérica neste ponto e precisamos deixá-la clara justamente para evitar que juÃzes possam interpretar que ações de massa são terrorismo, especialmente agora que teremos grandes eventos, pessoas de vários lugares do mundo. É preciso regulamentarâ€, defende.
Segundo Vaccarezza, a comissão mista para regulamentação das leis nacionais ainda está debatendo a matéria e aceita sugestões pela internet. “No site do Senado está a minuta do projeto e queremos a contribuição de todos. Estamos falando com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e vamos falar com o ministro da Justiça (José Eduardo Cardozo) e com o Supremo Tribunal Federal (STF)â€, fala.
No dia 18 de junho, o deputado esteve reunido com o relator do texto no Senado Federal, senador Romero Jucá (PMDB-RR). A intenção da comissão é votar o texto nesta semana. “Se não for possÃvel, aguardaremos e reapresentamos mais tardeâ€, garante Vacarezza.