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Janeiro 16, 2014

Relato da revista Vice: Acompanhamos a desocupação da “Cracolândia”

Pulga atrás da orelha: por que os contratos dos hotéis do programa “Braços Abertos” só vão até 13 de julho, data da final da Copa do Mundo 2014?  Serão subsequentes? Depois desse período, o que será dos usuários?
Da Vice
By Débora Lopes e Marie Declerq; Fotos por Raphael Tognini

Nesta quarta-feira (15 de janeiro), a Rua Helvétia e a Alameda Dino Bueno foram tomadas por caminhões de lixo, repórteres, câmeras fotográficas e um grande número de funcionários da Secretaria de Saúde e da Prefeitura que circulavam pelo local. Os moradores da área, que vivem sob barracos de madeirite e lona, juntavam seus pertences e organizavam itens que seriam descartados ou levados para suas novas moradias. É que se trata de um dos pedaços da Cracolândia, e foi assim que começou oficialmente a desocupação.

Batizada de “Braços Abertos”, a ação coordenada pela Secretaria de Saúde realocou os moradores em hotéis da região com a promessa de lhes oferecer, além da moradia, refeições, trabalho diário de quatro horas — eles farão limpeza urbana — e duas horas diárias de capacitação. Cada dia trabalhado renderá R$15 reais, que serão depositados semanalmente em uma conta bancária. De acordo com o secretário José de Filippi Junior, esse projeto foi planejado durante seis meses com os próprios dependentes, atendendo as necessidades relatadas. “Acreditamos que boa parte dessas pessoas vai, por meio do trabalho, se reerguer, se reestruturar. Estaremos juntos: a assistência social, a Secretaria do Trabalho e da Saúde. O tratamento não é obrigatório. Perguntaram, ‘E se as pessoas se intoxicarem e ficarem um ou dois dias sem trabalhar?’. Se ela não tem condição de trabalhar, ela vai ter que se tratar. Se ela continuar se tratando, continua bolsista, recebendo os recursos.” O programa dura seis meses. Coincidentemente, vai até a grande final da Copa do Mundo no Brasil, no dia 13 de julho.

Usuário de crack desde os 11 anos, Adeílton foi o primeiro a conversar com a VICE. Ao lado do irmão, também viciado, ele carregava seus pertences para a frente de um dos hotéis com uma ficha cadastral na mão, confuso. “Não sei pra qual hotel eu vou, ninguém me diz nada.”

Isaac, ou Nigéria, como gosta de ser chamado, fez sucesso com a imprensa. Nascido no país que gerou seu apelido e usuário de drogas há 20 anos, ele se apresenta como um dos moradores mais antigos da área. Dono de uma pequena “lojinha” de cacarecos instalada em frente a seu barraco, ele, sua companheira e mais dois cachorros já estavam de malas prontas, aguardando que um dos assistentes sociais os chamassem para seu novo lar. “Queria saber quem foi o cara que fez tudo isso daqui pela gente. Isso é muito bom. A sociedade não nos aceita. Drogado, craqueiro.” Ansioso para recomeçar a vida debaixo de um teto que não seja de lona, ele relembrou a desocupação que aconteceu em 2012, denominada “Centro Legal”, marcada pela truculência policial sobre os residentes. “Aquilo não resolveu nada. Depois de uma semana, todo mundo estava de volta ou tinha ido pra Sé.” No site da Polícia Militar, há um gráfico que se vangloria do trabalho efetuado na área: cinco quilos de crack apreendido (ou seja, nada), 517 prisões, 57.589 abordagens policiais e 440 flagrantes. Quantas pessoas se livraram definitivamente do vício e recomeçaram suas vidas? O gráfico, obviamente, não diz.

De blusa vermelha e decotada, uma mulher procurava por cigarro. Oferecemos um e ela se apresentou como Adele. Com 24 anos, há 15 usando drogas, ela conta que saiu de casa no Rio Grande do Sul aos 13 anos por causa do vício. Apesar de não morar na Cracolândia, e sim em um hotel na região da Armênia, Adele não carregava o mesmo otimismo a respeito da desocupação. “Isso não vai funcionar, sinceramente. O crack é uma coisa que não dá para largar. Você pode até ficar sem usar por um tempo, mas depois volta tudo de novo.” Ela diz que fuma mais de 30 pedras por dia e que cada uma custa 10 reais. Apesar de pedir para não ter o rosto fotografado, com bom humor ela nos concedeu uma foto de seus pés. “O que eu faço para ganhar a vida é obscuro, mas não faço programa.”

Depois de deixarem seus barracos para trás, os moradores foram encaminhados a uma tenda, onde uma refeição foi servida. Padres franciscanos cortavam o cabelo e faziam a barba de alguns deles. Após o cadastramento de cada morador, eles finalmente iam para um dos quatro hotéis designados como suas novas moradias.

Tentamos acompanhar o Nigéria e sua companheira até o quarto, mas fomos prontamente impedidos por um dos responsáveis do hotel. Mesmo com a aprovação do próprio Nigéria — que contou ao homem que éramos da imprensa, e também seus amigos. O único hotel que permitia a entrada de jornalistas e fotógrafos era o Seoul, na Alameda Barão de Piracicaba. Bonitinho, arejado, mais limpo e novo do que os outros, claro. Toda a visita foi acompanhada por um assessor de imprensa da Prefeitura que nos indicava aonde ir. “Vão para aquele quarto, tem cama de casal”, ele instruía um fotojornalista. “Vem pra cá, tem mais um personagem para fotografar.” Assustador. Os novos habitantes do Hotel Seoul não estavam muito dispostos a trocar ideia, mas conseguimos conversar com o Valcemir, que junto com sua namorada Vileide, ocupava o quarto 206. “Agora pelo menos eu tenho um lugar para morar”, disse.

Andando pelas ruas, esbarramos em Paulinho, um novo residente do Hotel do Cícero que estava animadaço. Formado em Letras, ele disse que já escreveu um livro e está para lançar o segundo agora em março. Está no crack há 20 anos e há 12 mora na Cracolândia. Perguntamos se era possível conhecer seu quarto e, empolgado, ele abraçou a ideia. Enquanto subíamos o primeiro lance de escadas do hotel fomos prontamente abordados por um assessor que, praticamente aos gritos, nos impediu de entrar e tirar fotos. O cara era uma espécie de Dimebag Darrell com óculos Juliette e trancinha na barba. Cabisbaixos, vazamos. Foi aí que Paulinho mostrou seu know-how e convidou nosso fotógrafo para entrar em sua nova casa de qualquer jeito. Lá, ele mostrou seus cachimbos e contou sobre sua relação com a droga.

Enquanto a manhã passava e conhecíamos pessoas com histórias tão distintas, os barracos eram desfeitos pelos moradores com a ajuda de funcionários da limpeza, até que a região ficasse parcialmente livre de quem os incomodou por tanto tempo. Ainda que seja melhor e mais esperançosa que uma desocupação violenta, para nós, ficou a pergunta: será que esta ação vai dar certo, quer dizer, vai ajudar a ressocializar pelo menos alguns dos craqueiros, ou será que vai funcionar somente para deixar São Paulo mais visualmente limpa para a Copa? Vamos acompanhar.

 

Siga a Débora Lopes no Twitter: @deboralopes

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