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Agosto 09, 2009

“Por que não aprendemos a lição?”

Site da Caros Amigos

Especialista da organização estadunidense Drug Policy Alliance questiona até quando a proibição irá pautar as políticas de drogas

Por Julio Delmanto

“O sistema global que defende a criminalização e o raciocínio penal para lidar com a questão das drogas se tornou um dos maiores desastres do século 20, e promete se tornar ainda maior caso não o transformemos”. É o que afirma o estadunidense Ethan Nadelman, diretor executivo da organização Drug Policy Alliance, um dos principais expoentes da luta antiproibicionista nos EUA. Após passagem pelo Rio de Janeiro, onde participou de atividades com o Ministro da Justiça Tarso Genro, Nadelman veio a São Paulo para uma palestra sobre suas concepções acerca das políticas sobre drogas no mundo.

PhD em relações internacionais, o professor iniciou seu raciocínio com a conhecida analogia entre a atual política de drogas e a “Lei Seca”, que proibiu, entre 1919 e 1933, a venda de álcool nos Estados Unidos. “Olhando para trás, todos hoje nos perguntamos: o que eles estavam pensando? Sabemos que álcool pode ser muito perigoso, mas a cultura que emergiu dessa proibição foi muito mais problemática”, apontou, citando não apenas a não redução do consumo de álcool, bem como diversos outros novos (e maiores) problemas, a exemplo do surgimento de um crime organizado, aumento da corrupção e de problemas de saúde decorrentes de bebida de baixa qualidade. “Por que não aprendemos a lição?”

Em comparação, Nadelman citou as alternativas encontradas por países europeus para lidar com o álcool no mesmo período: em vez de proibir, optaram por cobrança de impostos, restrição dos horários dos bares e por fortes campanhas de educação. Os resultados foram muito mais positivos do que os obtidos nos Estados Unidos: “Esse contraste demonstra não só que se pode evitar o poder do crime organizado como também atenuar os danos do uso sem recorrer à saída repressiva”, destacou.

A saída proposta pela Drug Policy Alliance é a legalização das diversas drogas que hoje são ilícitas. Nadelman faz questão de ressaltar que “legalização significa regulamentação, enquanto a proibição representa abdicar da regulação”. A organização defende o estabelecimento de normas para comércio e consumo, impedindo a venda para menores e a publicidade, por exemplo, além de impostos que permitiriam o atendimento médico aos usuários que necessitassem.

Maconha e outras drogas
O caso da maconha é o “mais simples”, segundo Ethan Nadelman – “nos EUA mais de 100 milhões de pessoas já experimentaram, a começar de nossos três últimos presidentes”. E provoca: “Quando me perguntam ‘e quanto aos jovens?’ eu respondo ‘e quanto aos jovens?’, hoje é mais fácil comprar maconha do que álcool, exatamente pela ausência de regulamentação”. Como exemplo, cita pessoas de sua idade, “na casa dos 50 anos”, que quando decidem comprar maconha, a primeira idéia é perguntar aos filhos.

No caso de outras drogas, como anfetaminas, cocaína e heroína, Nadelman relembra como cocaína e opiáceos eram legais nos Estados Unidos até o início do século 20, sem que houvesse grandes problemas por isso. “E por que foram proibidas? Por que algumas drogas são legais, e o problema do vício é tratado como questão médica, e outras são ilegais, com uso e vício sendo tratados criminalmente, principalmente quando se é pobre e negro?”, questionou.

A resposta à indagação não é muito difícil de ser encontrada. Ao se analisar o consumidor médio de ópio nos 1870/1880, encontra-se mulheres, brancas, de meia idade. É a partir da chegada de imigrantes chineses, que trabalhavam nas minas e na construção das estradas de ferro, que o ópio passa a ser estigmatizado como agente agressor da moral estadunidense. Processo semelhante de racismo e xenofobia acontece com os negros, estigmatizados como únicos usuários da cocaína. O mesmo acontece posteriormente com a maconha, usada como pretexto para discriminar os mexicanos.

Além da questão racial (entre 1985 e 1995 o número de negros presos por drogas cresceu 707%), há um claro recorte de classe, explícito, por exemplo, no fato da punição para consumo ou venda de crack ser muito maior do que no caso da cocaína na lei dos EUA. Um em cada 150 estadunidenses está preso. Nadelman cita o exemplo do número de mortes por ataque cardíaco decorrente do uso de Viagra ser muito mais alto do que os problemas ocasionados por diversas substâncias ilícitas, e se pergunta o que aconteceria com tal medicamento caso fosse uma “droga de pobres”.

“Precisamos olhar para a totalidade do uso das drogas ilícitas vendo que há diferentes maneiras de utilizá-las, assim como fazemos com o álcool”, disse o professor, ressaltando que a mídia aborda apenas o dependente de drogas como se este fosse o padrão de usuário, como se impossível fosse um uso racional de algum tipo de substância ilícita.
Outra vez partindo para os exemplos, Nadelman lembrou como há diversos países que emitem licença para uso de heroína farmacêutica: “o uso reduz sua sensibilidade á dor, mas o principal impacto ao corpo, apontado por médicos, é a constipação”.

Nadelman finalizou apontando que “devemos nos mover na direção do direito fundamental de livre decisão sobre o que colocamos em nossos corpos, nos limites de não causar danos a ninguém. É preferível que a pessoa obtenha a droga de fontes legais, o que seria uma faca no coração do crime organizado e da corrupção”.

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