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Agosto 24, 2009

Debate irracional

PEDRO ABRAMOVAY

O Globo – 21/08/2009

Quando, no ano 3009, os arqueólogos do futuro vierem explorar nossa civilização, certamente entre os temas que eles terão mais dificuldade de compreender estará a maneira como a nossa sociedade lida com a questão das drogas. Como explicar uma escolha arbitrária sobre quais drogas devem ou não ser consideradas lícitas, um tratamento penal extremamente severo para sua comercialização e uma estratégia global que se propõe a erradicá-las a um alto custo (financeiro e sobre a liberdade dos cidadãos), que tem se mostrado absolutamente ineficaz, mas que é adotada por quase todos os países? Ao mesmo tempo, como explicar as inúmeras críticas a esta estratégia que ignoram os enormes prejuízos que as drogas causam sobre as pessoas e os tecidos sociais? O que se pode dizer do debate contemporâneo sobre drogas é que se trata de um debate irracional, recheado de preconceitos, no qual cada lado tem enorme dificuldade de se abrir para o diálogo e procurar uma solu� �ão baseada em argumentos sólidos.
Se essa barreira inicial não for rompida, não se pode pensar em políticas públicas democráticas nesta área. A democracia pressupõe que todas as decisões do Estado possam ser racionalmente justificadas para que se permita seu questionamento público.

A Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça tem a função de discutir, do ponto de vista do ministério, reformas legislativas com o parlamento. A nossa experiência nos mostra que o parlamento pode ser — e tem sido muitas vezes — um espaço aberto para a produção de decisões baseadas em argumentos racionais. Os parlamentares brasileiros — ao contrário do que pode parecer — são muito permeáveis a bons argumentos e, em geral, estão muito dispostos a se convencerem por eles.

A partir desta constatação, a Secretaria criou o Projeto Pensando o Direito, que financia pesquisas feitas por universidades com foco em produzir argumentos para ampliar os espaços, n o parlamento, de desenvolvimento pleno do debate democrático.

Apresentamos ao público o resultado de pesquisa realizada pela UFRJ e pela UnB que, após uma seleção pública, foram escolhidas para produzir da dos sobre a aplicação da Lei 11.343 de 2006, que disciplina o tema das drogas no Brasil. O intuito do ministério ao promover esta pesquisa é justamente o de apresentar dados concretos sobre o tema, para que possamos construir um debate em um ambiente racional.

O resultado da pesquisa é muito impressionante. Analisando o universo de condenações penais no Rio e em Brasília, percebe-se que, se os condenados por tráfico de drogas representam o segundo contingente do sistema carcerário brasileiro (são quase 70.000 pessoas), a grande maioria desses indivíduos era réu primário, com bons antecedentes, estava desarmada, não integrava organizações criminosas e foi presa em flagrante.

Talvez seja o caso de nos perguntarmos se é conveniente que este perfil de condenado receba a pena de prisão ou se não seria mais interessante a possibilidade de se aplicar penas alternativas (hoje vedada pela lei). Afinal, esses indivíduos que podem ter se envolvido ocasionalmente com a comercialização de drogas irão pas sar cerca de um ano presos, em contato com as grandes organizações criminosas presentes nos presídios e sairão de lá estigmatizados e com muita dificuldade de encontrar oportunidades fora do universo do crime.

O Ministério da Justiça tem investido pesadamente na repressão às grandes quadrilhas e sabe que, num país onde a relação entre o tráfico de drogas e a violência é tão próxima, não se pode hesitar no combate às organizações criminosas. Entretanto, para que as políticas sobre drogas possam se dar de forma democrática, devemos, sempre, analisar com cuidado os dados da realidade e discuti-los publicamente para que se escolha a melhor alternativa de política pública.

No atual momento, tão importante quanto a luta contra as organizações criminosas é a luta contra os preconceitos que nos impedem de olhar com serenidade para o tema das drogas e produzir uma solução democrática para este problema que preocupa todo o Brasil.

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