
Brasil de Fato
Emblemas de direitos violados
Humilhação a cineasta e espancamento de rapper revelam violações que, embora frequentes, não eram veiculadas pelos meios de comunicação
29/06/2010
Leandro Uchoas
do Rio de Janeiro (RJ)
Há quinze dias, os moradores de Cidade de Deus, Rodrigo Felha e Fernando Barcellos, saiam de casa quando foram abordados por um policial da UPP. De forma desrespeitosa, o soldado mandou que tirassem a roupa, deixando-os apenas de cuecas. A revista dos dois talvez não tivesse ganhado visibilidade, não fossem eles diretor e co-diretor de um episódio do filme “Cinco vezes favela, agora por eles mesmosâ€. O longa seria exibido, naquela semana, no Festival de Cannes, na França. Relatos semelhantes ocorreram à exaustão na comunidade, sem ganhar a manchete dos jornais.
CrÃtico conhecido da “pacificaçãoâ€, o rapper Fiell chegou a liderar a confecção de um guia para orientar os moradores do Santa Marta sobre os limites de abordagem policial – a “Cartilha popular do Santa Martaâ€. No dia 23 de maio, policiais invadiram o bar de seu sogro, ordenando que se desligasse o som. Fiell começou a ler direitos civis no microfone e recebeu voz de prisão. Foi espancado pelos policiais. “Infelizmente, casos como o meu prevalecem, e as pessoas não denunciam. Passam por constrangimento, mas têm medo da polÃciaâ€, disse. A cartilha fora escrita com apoio da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) e do Ministério Público.
As duas violações, aos cineastas e ao rapper, foram divulgadas pelos jornais – talvez por não se tratar de favelados comuns. Vários outros exemplos de arbitrariedade não tiveram igual sorte. Edmilson Almeida, da Cidade de Deus, teve uma briga simples com a mulher, que foi à UPP reclamar. Os policiais invadiram a casa, espancaram Edmilson, xingaram e teriam, inclusive, ameaçado estuprar a mulher. Revistas e espancamentos são mais frequentes nos primeiros meses de instalação da UPP, quando a repressão é mais forte. Em diversas comunidades, atividades culturais são controladas ou proibidas.
No inÃcio de abril, na Ladeira dos Tabajaras, próxima a Copacabana, outro caso pouco divulgado chamou a atenção. O abandono da comunidade por uma moradora revelou que o tráfico, muitas vezes, está longe de ter sido eliminado. A mulher foi ameaçada por moradores, incomodados com sua proximidade com os policiais da UPP local. Seriam pessoas próximas a bandidos que dominaram a favela. Segundo a capitã Rosana Alves, comandante da unidade, “eles não são considerados traficantesâ€.
Na Cidade de Deus, os policiais admitem que o tráfico ainda existe, embora não haja mais armas de grande porte. No Pavão-Pavãozinho, um traficante foi preso em março vendendo drogas. Darlan Barbosa reagiu à prisão com um argumento que diz mais do que, a princÃpio, parece. “Não sabia. Ninguém me avisou que não podia maisâ€, disse. Após lançar pedras na polÃcia, o traficante foi perseguido. Foi encontrado num quarto, escondendo as drogas na cueca.