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Julho 06, 2010

Bancos, lavagem de dinheiro e narcotráfico

IHU – Unisinos

Alguns dos principais Bancos e empresas financeiras norte-americanas, entre elas a Wells Fargo, Bank of America, Citigroup, American Express e a Western Union, lucraram durante anos com a lavagem de fundos provenientes do tráfico de drogas e pagam multas irrisórias, sem que nenhum executivo seja preso quando as autoridades conseguem descobrir o negócio ilícito.

A reportagem é de David Brooks e está publicada no jornal mexicano La Jornada, 30-06-2010. A tradução é do Cepat.

Em múltiplos casos fiscalizados durante os últimos anos, estes bancos norte-americanos confessaram não ter cumprido leis e regulações federais para controlar a lavagem de dinheiro ao participar nas transferências de milhões de dólares de fundos ilícitos provenientes dos cartéis de drogas do México.

É o caso da Wachovia Corp., antes o sexto maior banco do país, comprado pela Wells Fargo em 2008, e que agora, com a fusão, é o banco com maior número de filiais nos Estados Unidos. A Wells Fargo admitiu, em um tribunal, que a Wachovia não tinha feito o suficiente para controlar e notificar as atividades suspeitas de lavagem de dinheiro por parte de traficantes de drogas, incluindo fundos para a compra de pelo menos quatro aviões nos Estados Unidos, que entregaram um total de 22 toneladas de cocaína. O outro banco envolvido na transferência de fundos, com os quais foi comprado um destes aviões – um DC-9 que subsequentemente foi confiscado no México com toneladas de cocaína –, é o Bank of America, informa a Bloomberg News.

Tudo isto veio à tona por conta de um acordo judicial do banco com fiscais federais, em março passado. Nos documentos oficiais judiciais do caso, a Wachovia admitiu que não fez o suficiente para detectar fundos ilícitos em seu manejo de mais de 378,4 bilhões de dólares em seus negócios com casas de câmbio mexicanas entre maio de 2004 e maio de 2007.

Deste total, a Wachovia processou pelo menos 373,6 bilhões em transferências eletrônicas, mais de 4,7 bilhões em transferências em espécie, e outros 47 milhões em depósitos de cheques internacionais. Nem todos estes fundos estão vinculados ao narcotráfico, mas, segundo as investigações do Departamento de Justiça, milhares de milhões não foram sujeitos ao controle ordenado pela lei, e centenas de milhões de dólares destes fundos estão diretamente ligados ao tráfico de drogas. Pelo volume total de fundos que não foram sujeitos ao controle antilavagem de dinheiro, o caso da Wachovia resulta ser a maior violação da Lei de Segredo Bancário da história. Essa lei obriga os bancos a notificar às autoridades toda transferência de fundos em espécie maior de 10.000 dólares, assim como informar sobre qualquer atividade suspeita de lavagem de dinheiro.

O fiscal federal que coordena o caso, Jeffrey Sloman, declarou em março, ao anunciar o acordo com a Wells Fargo: “A flagrante desatenção de nossas leis bancárias por parte da Wachovia concedeu uma virtual carta branca aos cartéis internacionais de cocaína para financiar suas operações ao lavar pelo menos 110 milhões de dólares em ganhos da droga”.

Não é que tenha passado despercebido por todo mundo. O próprio banco admitiu no tribunal que já desde 2004 a Wachovia reconheceu o risco, mas que apesar das advertências permaneceu no negócio, segundo os documentos judiciais oficiais do caso.

Esse negócio era a administração e transferência de fundos de pelos menos 22 casas de câmbio no México que tinham contas com a Wachovia. Um exemplo citado nos documentos é o da Casa de Câmbio Puebla S.A., cujos gerentes criaram empresas fantasmas para os cartéis e, segundo o Departamento de Justiça, conseguiram lavar cerca de 720 milhões através de bancos norte-americanos. De fato, foi o caso da Casa de Câmbio Puebla que detonou esta investigação das autoridades federais. Desde 2005, já estavam sob investigação algumas transferências eletrônicas de fundos para contas da Wachovia, em suas filiais em Miami, do México feitas por casas de câmbio, e estes fundos eram utilizados para a compra de aviões destinados ao tráfico de drogas, relatam os documentos judiciais do caso.

Por outro lado, durante esse período o diretor da unidade anti-lavagem de dinheiro da Wachovia em Londres, Martin Woods, suspeitava que narcotraficantes utilizavam o banco para movimentar fundos. Informou os seus chefes, que lhe ordenaram deixar o assunto, e por isso renunciou ao seu posto, informou a Bloomberg. Woods disse ao serviço de notícias que “é a lavagem de dinheiro dos cartéis pelos bancos que financia a tragédia… Se não se vê a relação entre a lavagem de dinheiro pelos bancos e as 22.000 pessoas assassinadas no México, não se entende o que está em jogo”.

Após ser acusada de violar a lei, a Wells Fargo, agora dona da Wachovia, se comprometeu em um tribunal federal de Miami a reformar seus sistemas de controle. Pagou 160 milhões em multas, e caso cumpra a promessa feita às autoridades federais, estas deixarão os encargos contra o banco em março de 2011. Esta prática é comum nestes casos e se chama acordo de fiscalização diferida, pelo qual um banco paga uma multa, coopera com a investigação e se compromete a não violar a lei outra vez.

Em sua reportagem, a Bloomberg enumera vários outros casos em que bancos pagaram multas e mudaram as suas práticas, mas não enfrentaram nenhuma consequência penal importante por suas ações. É o caso do American Express Bank International de Miami, que pagou multas em 1994 e 2007; do Bank of America, cujas contas das filiais de Oklahoma City foram utilizadas para comprar aviões para narcotraficantes, assim como também contas em suas filiais de Atlanta, Chicago e Brownsville, Texas, e também há casos documentados sob investigação sobre o uso de filiais no México de bancos estrangeiros como o Citigroup, HSBC e Santander.

Outro caso é o do Western Union, que no começo deste ano pagou 94 milhões para resolver uma investigação criminal e civil do procurador-geral do Arizona, depois de que numa operação agentes clandestinos da polícia estatal, disfarçados de narcotraficantes, conseguiram subornar em múltiplas ocasiões empregados do Banco para transferir fundos de maneira ilícita. Em 20 escritórios diferentes do Western Union nenhum empregado jamais recusou um suborno para permitir envios com nomes fictícios.

Calcula-se que quase 30 bilhões de dólares em dinheiro vivo se movem de um lado a outro da fronteira mexicana com os Estados Unidos, e uma parte destes recursos é depositada em bancos de ambos os países e bancos internacionais, a partir dos quais os fundos podem ser transferidos para todo o sistema financeiro internacional.

*Mais sobre drogas e lavagem de dinheiro -> A droga, o tráfico e a lavagem de dinheiro – Andreu Camps, Revista A Verdade, nº 14, agosto de 1995

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