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Julho 19, 2010

Não chore por nós, Argentina

Com a decisão da Suprema Corte argentina de descriminalizar posse de drogas para consumo pessoal perto de completar um ano, mais uma vez nossos rivais no futebol mostram-se muito à frente nos debates por direitos humanos. Desta vez o Senado argentino aprovou, depois de forte mobilização popular (foto), o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo – tornando-se o primeiro país na América Latina a legislar neste sentido. Confira dois textos sobre o assunto, um do Blog do Sakamoto e outro do site de Rodrigo Viana, no qual Ricardo Ferrez relata suas impressões sobre este momento, uma vez que passava férias no país; “ontem, enquanto jantávamos, meu cunhado (hétero) ligou para o meu sogro dizendo que tinha saído do trabalho e se dirigia ao Congresso para a vigília pela aprovação do casamento gay.  Senti uma certa inveja. Isso no Brasil raramente aconteceria”. Quem sabe um dia, já passou da hora não é mesmo?

Argentina avança com matrimônio gay. E no Brasil…

Blog do Sakamoto

O Senado da Argentina aprovou o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Quando a presidente Cristina Kirchner sancionar a mudança (e ela o fará, pois é defensora da proposta), o país será o primeiro da nossa machista América do Sul a universalizar esse direito. Gays e lésbicas poderão constituir oficialmente casais, com os mesmos direitos dos pares heterossexuais, incluindo herança, direito a pensões, adoção de filhos. Houve fortes protestos contra e a favor da mudança na legislação mas, ao final, ganhou a razão – vitória que pode ser computada na conta da sociadede civil argentina e suas organizações em prol dos direitos dos homossexuais.

O que mostra, mais uma vez, de que a discussão de quem tem um futebol mais bonito e eficiente está em aberto, mas em termos de civilidade o Brasil ainda tem muito o que aprender com o irmão do Sul. Por aqui, a Advocacia Geral da União defende a união estável de casais homossexuais. Em nome da Presidência da República, a AGU argumenta que as relações homossexuais existem independentemente de amparo legal, embora países já tenham mudado sua legislação para incluir essa possibilidade. O parecer tratando do tema veio para apoiar a Procuradoria Geral da República, que pediu para o Supremo declarar inconstitucional o artigo do Código Civil que considera a união possível apenas entre homens e mulheres.

Na Argentina, para possibilitar o matrimônio, houve uma alteração na legislação trocando “homem e mulher” para “cônjuges”. Há propostas tramitando no Congresso Nacional brasileiro para permitir a união civil entre pessoas do mesmo sexo, mas distantes de serem aprovadas. E a questão do matrimônio, então, é lenda. Afinal de contas, isso é pecado…

Apesar da influência de grupos religiosos contrários à mudança, mais cedo ou mais tarde, a lei será alterada no Brasil também, garantindo dignidade e combatendo o preconceito. Já está indo aos poucos: é um homem que consegue estender o plano de saúde para o seu companheiro, é uma mulher que consegue a pensão de sua companheira. O problema é que essa marcha está sendo bem lenta quando, em verdade, deveria correr rápida para dar tempo às pessoas que hoje vivem de desfrutarem uma nova realidade.

É um absurdo que a essa altura da história nossa sociedade ainda esteja discutindo se deve ou não universalizar direitos. Que, de tempos em tempos, gays e lésbicas sejam espancados e assassinados nas ruas só porque ousaram ser diferentes da maioria. Que seguidores de uma pretensa verdade divina taxem o comportamento alheio de pecado e condenem os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra.

Consciência não se aprende na escola, nem é reserva moral passada de pai para filho nas famílias. Mas sim na vivência comum na sociedade, na tentativa do conhecimento do outro, na busca por tolerar as diferenças. O Congresso Nacional, que hoje está sentado em cima de propostas de mudança, é fruto do tecido social em que está inserido – e sim, a esbórnia que ganha as páginas policiais, digo, de política, é um reflexo de nós mesmos. Na prática, uma (não) decisão legislativa tem em seu âmago o mesmo preconceito das piadas maldosas contra gays ou dos pequenos machismos em que nós (e não me excluo disso) nos afundamos no dia-a-dia. O que difere é o tamanho do impacto, não sua natureza.

Coloquemos a culpa no processo de formação do Brasil, na herança do patriarcalismo português, nas imposições religiosas, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil atestar que somos frutos de algo, determinados pelo passado, do que tentar romper com uma inércia que mantém cidadãos de primeira classe (homens, ricos, brancos, heterossexuais) e segunda classe (mulheres, pobres, negras e índias, homossexuais etc.). Tem sido uma luta inglória, mas necessária. Que inclui uma profunda reflexão sobre nossos próprios comportamentos. No final, será uma escolha entre a barbárie da intolerância e a civilização.

A batalha contra a hipocrisia

por Ricardo Ferraz

Vejo na televisão a aglomeração em frente ao Congresso Nacional argentino. Faz frio em Buenos Aires, cerca de 3 graus. Mesmo assim, milhares de pessoas saíram às ruas para apoiar o projeto de lei que permite a igualdade civil entre pessoas do mesmo sexo. É uma resposta aos setores mais conservadores da sociedade argentina que, no dia anterior à aprovação do projeto, ganharam as ruas da capital convocados pela Igreja. Eram soldados em uma batalha que os bispos convencionaram chamar de uma “guerra contra Deus”.

Felizmente, para a Argentina, e mais ainda para a América Latina, eles perderam. Saem derrotados não só porque  gays passam a ter os mesmos direitos civis que os heterosssexuais (podem casar-se, tem direito à herança e a adotar crianças), mas sim porque essa espécie de “guerra santa” deixou exposta a verdadeira cara dos setores mais conservadores da sociedade argentina – que não diferem muito da direita do resto do continente americano ao sul do equador.

Durante toda a semana, a sociedade esteve totalmente tomada pelo debate do projeto de lei. Na televisão, em todos os programas, dos mais populares aos mais elitistas,  viam-se pessoas discutindo o casamento igualitário, o termo politicamente correto adotado por aqui da união civil entre homossexuais. A direita destilou todo tipo de preconceito. Um deputado ultra conservador da província de Salta (ao norte) declarou: “não deixo meu filho ir à casa de um casal gay porque na hora de dormir um deles pode aparecer de pijama com um pompom rosa na cabeça”. Em outro programa, um dos mais tradicionais da Argentina, em que uma espécie de Hebe Camargo local recebe os convidados para um almoço, a apresentadora pergunta a um artista assumidamente homossexual: “Você não tem medo que um casal gay que adota uma criança, no futuro, possa estuprá-lo?”.  A representante da Opus Dei, uma advogada que  defende representantes do governo militar, faz o discurso do “isso não é normal, Deus uniu os homens e as mulheres, não os de mesmo sexo”.

Por outro lado, na TV Pública, criada e mantida pelo governo Kirchner, um programa de debates, chamado “6, 7 e 8”, edita tudo e resolve dar nome aos bois, colocando os que são contra a medida como inimigos da pátria. “Saiba quem é quem” gritam os letreiros no rodapé da tela de televisão. “Esse deputado que roubou terra dos índios para plantar soja é contra o casamento gay”. Em outra nota: “esse representante dos ruralistas que apoiou a ditadura é contra os direitos igualitários”. O repórter de um programa do tipo CQC ouve de uma mulher contra a medida que, se ela fosse aprovada, daqui a pouco se uniriam pessoas e cachorros. O bem humorado repórter resolveu ouvir a opinião do cachorro, que sequer latiu.

Preconceito, piadas e radicalismos à parte, o que as pessoas dizem pelas ruas (na maioria das vezes, conversei com pessoas que eram favoráveis ao projeto) é que a Igreja aprova tudo o que acontece às escondidas, inclusive os casos de pedofilia nas barbas do Vaticano, mas se revolta quando a moral cristã é questionada às claras. Tremenda hipocrisia. Ganhou vulto no país o depoimento de um padre a favor do casamento gay, cuja irmã é lésbica e vive com outra mulher, e que foi proibido pela Santa Sé de realizar missas. O representante dos Putos Peronistas (sim eles existem) foi à TV dizer que a decisão era absurda, uma vez que outro padre, acusado de ser um torturador durante a ditadura militar, continuava a pregar.

Em outras palavras, a aprovação desse projeto ilustra bem a polarização política que tomou conta da Argentina. Ainda que os temas se confundam, e que tortura e casamento gay sejam coisas absolutamente distintas, o país avança rumo a um caminho que até pouco tempo seria impensável na America Latina.

Tal polarização tem outras conseqüências, inclusive econômicas, e é freqüentemente contestada por jornalistas brasileiros que a colocam como sendo prejudicial, ao longo prazo, para o país. Confesso que desembarquei na Argentina para férias com a família (cometi o pecado aos olhos brasileiros de me apaixonar por uma argentina com quem tenho dois filhos) tendo o mesmo pensamento. Mas me pergunto, cada vez mais, se prefiro um país onde as coisas são claras, ou um país onde há uma aparente conciliação entre interesses conflitantes e que mudou muito pouco nos últimos 500 anos.

Não tenho a respostas imediata, mas ontem, enquanto jantávamos, meu cunhado (hétero) ligou para o meu sogro dizendo que tinha saído do trabalho e se dirigia ao Congresso para a vigília pela aprovação do casamento gay.  Senti uma certa inveja. Isso no Brasil raramente aconteceria. Preferimos os lobbys escusos em Brasília e a sensação, obviamente falsa, de que em nosso país todos convivemos bem com as diferenças.

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