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Outubro 13, 2009

“Mães de maio” exigem desarquivamento dos crimes praticados pela polícia paulista

Lançamento do filme “Salve Geral” é marcado por protesto de familiares de vítimas dos crimes de maio de 2006

Por Tatiana Merlino, do site da Caros Amigos

Na noite do dia 16 de maio de 2006, Paulo Alexandre Gomes, de 23 anos, saiu de sua casa, no bairro de Itaquera, São Paulo, e nunca mais voltou. O rapaz ia visitar a namorada, e, segundo testemunhos de amigos, foi abordado por uma viatura da Rota.
O desaparecimento de Paulo Alexandre ocorreu no episódio que ficou conhecido como “Crimes de Maio”, matança decorrente da contra-ofensiva da polícia de São Paulo aos ataques da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), em maio de 2006.

De acordo com a própria Secretaria de Segurança Pública, o PCC foi responsável pela morte de 47 pessoas. No entanto, no período – 12 a 20 de maio –, 493 pessoas foram assassinadas por armas de fogo, de acordo com informações do Conselho Regional de Medicina (Cremesp). Ou seja, os demais 446 assassinatos entraram para as estatísticas de crimes não esclarecidos. Há fortes indícios de que as mortes tenham sido praticadas por policiais em represália aos ataques do PCC.

Francilene Gomes Fernandes, irmã de Paulo, foi uma das participantes de um protesto que ocorreu no dia 2, na avenida Paulista, quando entrou em cartaz o filme “Salve Geral”, concorrente a melhor filme estrangeiro no Oscar 2009.

Desarquivamento e federalização
O longa de Sérgio Rezende é inspirado nos ataques comandados pelo PCC contra policiais tanto nas ruas quanto de dentro do sistema penitenciário. No entanto, familiares das vítimas da contra-ofensiva da polícia paulista criticam o filme por não ter ouvido o lado das “Mães de Maio”, agrupamento de familiares e mães das vítimas. “Estamos aqui para denunciar os crimes e pedir justiça. Aproveitamos o lançamento do filme porque nossa versão não foi tratada pelo diretor”, critica Francilene.

Os pedestres que passavam na frente do shopping Center 3, na avenida Paulista, recebiam um manifesto exigindo o “desarquivamento e a federalização dos crimes de maio”. Faixas, cartazes, velas e fotos dos mortos também chamaram a atenção dos transeuntes que paravam para observar o protesto. Paulo Alexandre era ex-presidiário e estava em liberdade condicional havia onze meses antes de desaparecer. Para Francilene, o fato de seu irmão ter passagem pelo sistema penitenciário deve ter sido um “pretexto” para a detenção e desaparecimento. À época, as autoridades policiais de São Paulo incentivaram a reação na busca dos “suspeitos”, proferindo frases do tipo: “vai morrer uma média de 10 a 15 bandidos por dia em São Paulo” e “vai ter troco”. De acordo com Francilene, um ano após o desaparecimento de Paulo Alexandre, a família conseguiu uma reunião com o secretário de segurança publica Ronaldo Marzagão, “que disse que ia colocar a cúpula da polícia à nossa disposição, mas, até hoje, não há nada”.

A jovem lembra que, em relação ao caso de seu irmão, “diferentemente das vítimas fatais, não há o corpo. Vivemos numa lacuna entre a verdade e a justiça”, diz. “Não temos nem o direito de ir levar flores em seu túmulo”.

“Escutei os tiros de casa”
Entre as mães de vítimas presentes, vestidas com camisetas que estampavam a foto de seus filhos, estava Vera Lúcia Andrade de Freitas, que perdeu o filho, Mateus, de 21 anos, em 17 maio de 2006. Morador da cidade de Santos, Mateus estava na frente de uma pizzaria com o amigo Ricardo Porto Noronha, de 17 anos, quando foram atingidos por disparos de homens vestidos de preto e encapuzados, que passaram numa moto.

“Escutei os tiros de casa”, relata a mãe. De acordo com relatos de moradores da região, dois policiais teriam sido vistos trocando de roupa num posto de gasolina e saindo numa moto trajando roupas escuras.

O inquérito foi arquivado por falta de provas. Apesar dos indícios do envolvimento de policiais nos assassinatos, “o delegado teve coragem de falar que ia arquivar porque as mortes deveriam ser por problema de dívida com drogas. De onde ele tirou isso?”, indigna-se a mãe. Segundo ela, o filho nunca teve envolvimento com drogas e não tinha passagem pelo sistema penitenciário. “Mas mesmo que tivesse, existe uma justiça neste país”, critica.
Quando um pedestre pergunta à Vera o que significa aquela manifestação e, depois da resposta, sai, desinteressado, ela comenta: “Algumas pessoas agem como se isso não fosse com elas, e não sabem que é, que isso está se tornando normal. Por isso estamos aqui. A gente não quer que isso caia no esquecimento”.

“Tu é ladrão, já morreu”
Outra mãe que luta desesperadamente por justiça é
Débora Maria da Silva, presidente da Associação de Amparo de Mães e Familiares de Vítimas da Violência. Seu filho, o gari Edson Rogério Silva dos Santos, 29 anos, foi assassinado no dia 15 do fatídico mês. Na noite de sua morte, ele abastecia uma moto emprestada num posto de gasolina no bairro de Vila São Jorge, periferia de Santos.

Segundo testemunhos, foi abordado por policiais militares, e após responder aos policiais que já havia sido preso, começou a ser espancado. “Tu é ladrão, já morreu”, disseram os homens. Apareceu morto com quatro tiros, um no coração, um em cada pulmão e outro nas nádegas. Edson caiu morto na mesma rua que havia varrido horas antes.

Débora afirma que as mães querem que o diretor produza um “Salve Geral 2, com a nossa versão incluída. A realidade não está presente nesse filme, cadê a dor das mães?”, questiona. “Só vou sossegar quando houver justiça desse Estado genocida”.

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