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Fevereiro 02, 2012

Discodélicos #4: Syd Barrett

Coletivo DAR

O uso de substâncias psicotrópicas é como uma corrida de olhos vendados à beira de um penhasco. Apesar de conseguir imaginar, você nunca pode dizer com toda certeza como será a experiência. A única garantia que há é sua chance de cair. E ela não é pequena. Justamente por isso a chegada ao outro lado causa tamanha sensação de bem estar. É quando se percebe que o perigo do desfiladeiro não te ameaça mais.

   
Mas a sorte não consegue levar a todos pela mão ao mesmo tempo, e alguns de nós acabamos dando com a cara no fundo do abismo. A droga se torna então pequenas doses de morte, congelando-nos por dentro. O caso mais emblemático dessa situação no nosso universo discodélico é o de Syd Barrett, primeiro vocalista do Pink Floyd.

O hábito de tomar quantidades descomunais de LSD o lançou num colapso psicótico, que o fez largar a banda e voltar para a casa de sua mãe, tendo como únicas atividades cuidar das plantas do jardim e pintar alguns quadros até o último de seus dias. Antes disso, era o principal compositor das músicas do Floyd, além de instrumentista inovador, sendo dos primeiros a explorar a fundo as capacidades sonoras da distorção e da então recém desenvolvida máquina de eco, fazendo de sua guitarra um matadouro.

Em sua discografia, existe um álbum que capta, ainda que não intencionalmente, o exato momento em que se percebe que ele parou de lutar. É possível sentir a depressão se arrastando em espiral descendente, com Syd despojando seu som para criar canções melancólicas, nuas e soltarias. “Barrett”, o disco, soa rústico e exposto, como se estivesse sem pele. É um caso singular de alguém que compôs o próprio réquiem.

O trabalho na verdade foi finalizado por dois membros de sua antiga banda, David Gilmour e Richard Wright, que buscaram dar às canções o melhor acabamento que seria possível sem a participação de seu autor. Barrett em muitas ocasiões não queria aperfeiçoar seu trabalho. Em tantas outras era apenas incapaz. Apesar disso, a visão caprichosa e inquietante de Barrett se mantém até o fim.

Outro aspecto latente do álbum, e que pode ser notado desde os primórdios de sua caminhada artística, é a relação de dependência que ele sempre manteve com a mãe. Essa forte ligação originou a parte do álbum em que canções trazem aspectos de um amor infantil; são castas, repletas de mel, creme de leite e “baby lemonade” – título de uma das músicas. Apesar da aparência edipiana, o amor de Syd pela mãe está mais próximo do desejo infante de ser dono de uma loja de brinquedos do que do coito propriamente dito.

Essa contradição entre morte e maternidade mostra a imensidão íntima que ele sentia, juntando corpo e horizonte numa sensação de vastidão, que parece prometer um fim para a existência apartada e recuperar uma continuidade perdida. Esse é o ritmo de “Barrett”, trafegando entre o piegas e o doentio, entre cafuné e unhas raspando numa lousa. Uma criança, implorando para que sua mãe leia mais um capítulo de seu conto de fadas favorito antes de finalmente dormir. E então rever seus pesadelos.

Adeus, mundo
O consumo de drogas e a instabilidade psíquica por parte de Syd aumentavam na mesma proporção em que crescia a popularidade da banda. A conjunção entre uma personalidade perturbada e o uso abusivo de drogas era explosiva, tornando sua persona cada vez mais imprevisível e seu comportamento cotidiano um estorvo para o grupo. Syd tornou-se extremamente difícil de lidar, e cada vez mais ausente.

           

Num caso que ficou famoso, durante uma aparição num programa de TV ele se recusou a fingir que atuava durante o playback de sua música. Ficou parado, braços caídos ao longo do corpo e olhar fio na câmera. Outra história diz que Barrett apareceu no estúdio apresentando aos colegas uma música nova. Conforme ele ia ensinando a canção ao grupo, perceberam que ele mudava os acordes a cada vez que a tocava, tornando impossível prosseguir com aquilo.

Passados apenas dois anos da formação do Pink Floyd, Barrett não fazia mais parte da banda. Após ter gravado algumas partes do segundo álbum do grupo, “A Saucerful of Secrets”, de 1968, ele foi dispensado do grupo. A intenção era que Barrett continuasse a contribuir na parte de composição e gravação.

Mas ele parecia se interessar cada vez menos, e seu comportamento era cada vez mais errático, o que fez com os outros membros do grupo progressivamente deixassem de convidá-lo para qualquer trabalho. Estava óbvio que ele nunca mais voltaria.

O declínio de Syd teve um profundo efeito na obra da banda, e tanto seus distúrbios mentais quanto as sombras de sua desintegração psicológica e física estão fortemente intrincadas nos três álbuns de maior sucesso do Pink Floyd: “The Dark Side of The Moon”, “Wish You Were Here” e “The Wall”. O comportamento e a  personalidade de ‘Pink’, principal personagem do filme “The Wall”, também foram inspirados em Barrett.

Após um período de hibernação, Syd reapareceu em 1970 com um par de álbuns, “The Madcap Laughs” e “Barrett”. Ambos os registros com um quê de maltrapilho, inacabado. Ainda assim, estão lá o humor excêntrico, o jogo de palavras escondidas e as melodias infecciosas que caracterizaram os verdes anos do Pink Floyd. Após esses dois últimos disparos, Barrett se retirou e nunca lançou nenhum outro material.

O primeiro álbum já apresenta fortes indícios do frágil estado de espírito de Syd. The Madcap Laughs nem de longe tenta parecer um disco consistente. O que se extrai dali é o efeito hipnótico da guitarra e fluxo de consciência das letras, que, se analisadas pausadamente, não fazem sentido em absoluto. Destaque somente para “Dark Globe”, um retrato terrível em primeira pessoa de seus pesados conflitos interiores. Talvez a música mais autoconsciente dele.

Já o segundo disco era Barret escorregando num tobogã para uma vida reclusa. Ele voltou da experiência e tentou entendê-la, mas nada foi suficiente. Ele foi daqueles que viveu intensamente e sentiu profundamente demais para viver nesse mundo cortado de meias medidas e insatisfação.


Quando se quer fugir, a última coisa de que se precisa é alguém salgando as feridas, como ele fazia consigo mesmo. Syd continuou a sofrer de doença mental por toda sua vida e faleceu no dia 7 de Julho de 2006, aos 60 anos. As causas não foram confirmadas. Especula-se que tenha morrido por complicações relacionadas com a diabetes, enfermidade da qual sofria há anos.

Hit-valeu-syd

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=1tY1aNaIazA[/youtube]

Baixe o álbum Barrett aqui.

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