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Agosto 09, 2012

São Paulo: balada na praça e repressão policial

Passa Palavra

A ideia de uma festa numa praça vai na contramão da política proibicionista vigente, ao mesmo tempo em que se apresenta como única alternativa restante. por C.M.

Inspirados pelo filme Projeto X – Uma festa fora do controle (2012), longa comercial americano no qual jovens colegiais organizam uma festa que toma proporções inesperadas, um grupo de adolescentes da Mooca [bairro de São Paulo] resolveu viver algo parecido. Só que, diferentemente da versão cinematográfica, a festa paulistana não foi marcada em uma casa, mas na rua. Com o nome de Projeto Praça, ou simplesmente Projeto P, a convocação do evento no Facebook rapidamente se espalhou, chegando a onze mil confirmados em poucos dias.

Frente a um contexto no qual a vida noturna e o lazer na cidade vêm sendo progressivamente cerceados por proibições como a lei antifumo, a lei do psiu (que tira as pessoas da rua depois da meia-noite e interdita estabelecimentos) ou o projeto de lei estadual que pretende vetar o consumo de álcool em espaços públicos, o jovem de classe média vê suas opções de balada[noitada] cada vez mais limitadas. A situação é ainda pior para os adolescentes, que enfrentam também o endurecimento na fiscalização da venda de bebida para menores de idade. A estes resta se arriscar com um RG[carteira de identidade] falso ou se fechar na casa de amigos. A ideia de uma festa numa praça como o Projeto P vai na contramão da política proibicionista vigente, ao mesmo tempo em que se apresenta como única alternativa restante.

Prova disso foi o sucesso e a repercussão do convite virtual, que logo extrapolou as fronteiras do bairro e recebeu confirmações de toda a cidade. A página do evento recebeu comentários entusiasmados, desde o “bonde da zl” até a “galera da norte”. Certamente o caráter aberto da festa, a ser realizada em uma praça pública (não exigindo, portanto, o pagamento de ingresso; pedia-se apenas que todos levassem bebidas), exerceu importante atração sobre boa parte dos participantes.

A notícia logo chegou aos ouvidos dos moradores do bairro, que apelaram para a Polícia Militar. Igualmente assustados, os organizadores do evento lançaram uma nota pública dizendo que não se responsabilizavam por ninguém. Enquanto isso, nos comentários da página, os convidados já debatiam táticas para lidar com uma iminente repressão policial: “chegou policia a gnt vaza pra outro lugar, chegou de novo, vai pra outro outro e outro ate eles cansarem” ou “a parada é a gente queimar um ônibus do outro lado da cidade, ai os verme vão pra la”, enquanto outros tentavam acalmar os ânimos: “ta chegando na idéia errada já, a festa do filme começou como UMA FESTA, não como um confronto policial!! então, já podem parar de se imaginar revolucionários”. Na sexta-feira, o Facebook excluiu o evento, provavelmente após denúncias, alegando que este violava a “Declaração de direitos e responsabilidades” da rede social.

Foi também por internet que nós ficamos sabendo e decidimos ir. Na data marcada (sexta-feira, 3 de agosto), enquanto esperávamos nossos amigos chegarem na estação Vila Prudente do metrô, grupos de jovens de entre 15 e 20 anos saíam constantemente dos trens em direção à praça. Eis que somos abordados por uma dupla de cabeludos com calças apertadas, que nos pede ajuda para ir até o local marcado. Animados, eles nos explicam: “Nessa festa vai ter gente de todos os lugares, de todos os rolês[1]: rolê funk, rolê zika, rolê punk, rolê anime… A gente é do Jardim São Paulo, zona norte, rolê do rock. E vocês?”. “Zona oeste e leste”, respondemos, mas sem saber definir ao certo nosso “rolê”.

Chegando ao local, descobrimos viaturas da PM bloqueando todos os acessos à praça, que parecia vazia. “Vocês devem ter vindo por causa da festa, mas ela não vai mais acontecer. Temos ordem de permitir apenas a entrada de moradores”, explicou um policial. Alguém apelou para o direito de ir e vir, em vão. Frustrados, resolvemos dar a volta e tentar outras entradas.

Eis que no acesso principal encontramos uma multidão, entre mil e duas mil pessoas, rodeando um McDonalds na esquina com a Avenida Paes de Barros, já parcialmente ocupada. Então a festa estava acontecendo! A polícia não conseguira deslocá-la mais do que um quarteirão. Ali, porém a situação estava mais tensa: o bloqueio da praça estava sendo feito pela Força Tática, desde o início posicionada em formação de Choque, com escudos e capacete.

Enquanto isso, a festa acontecia, tomando parte da via e o estacionamento da lanchonete, que, mesmo em horário de funcionamento, fechara as portas. De fato, na multidão, havia representantes dos vários “rolês” que os rapazes da estação haviam apontado. Rapazes sem camisa tomando destilados misturavam-se com meninas de salto e sujeitos semi-fantasiados, como um adolescente vestia a máscara da série V de Vingança (símbolo do grupo hacker Anonymous). A festa se espalhava pela avenida até um posto de gasolina dali a um quarteirão, onde as pessoas iam comprar bebida e motoristas estacionavam seus carros, colocando o som no volume máximo. Grandalhões sem camisa se divertiam bloqueando o trânsito enquanto praticavam abdominais no asfalto. Um rapaz de preto caminhava calmamente em meio à festa vestindo uma máscara de gás, num estilo black bloc casual.

As pessoas bebiam e o clima geral era de felicidade – vez ou outra, ouvia-se exclamações como: “A rua é nossa, porra!” ou “É tudo nosso e nada deles!”. Porém, junto ao nível etílico, a tensão com a polícia começou a crescer: conforme se esvaziavam as garrafas, elas eram lançadas no asfalto, em direção à linha de escudos. Também em tom de provocação, motoqueiros passavam perto da polícia fazendo barulho com o escapamento. Bombinhas de barulho e fumaça começaram a estourar e em seguida lançaram um fogo de artifício.

Para aliviar o clima, a PM começou a liberar a entrada para a praça, desde que as pessoas fossem revistadas e apresentassem documento. Mas a praça não interessava mais: a festa já estava acontecendo, e em outro lugar. De repente a música parou e alguém puxou: “ê, ê, ê, nóis é do Projeto Pê!”. Logo todos aderiram ao grito, que se converteu no slogan da Marcha da Maconha: “ei, polícia, maconha é uma delícia”, e disso para “ei polícia, vai tomar no cu”.

Antes da meia-noite, a fim de impor à força a lei do psiu, a Polícia Militar se retirou da praça e agressivamente posicionou-se em formação de Choque na avenida. Assustadas, as pessoas correram, bloqueando toda a via. Vinte minutos depois, percebendo que a maioria das pessoas continuava ali, reacomodada, como se não quisessem parar a festa, algumas viaturas avançaram em meio à multidão e um sujeito – talvez um organizador – foi detido. Assustados, grupos de meninas e adolescentes correram para longe. Arrancadas de seus mastros na lanchonete, as bandeiras do Brasil e do McDonalds foram queimadas. Aí estourou a primeira bomba de gás lacrimogêneo.

A multidão correu um pouco para baixo, mas continuou unida. Alguns continuavam bebendo e fumando tranquilamente. Garrafas e uma cadeira do McDonalds voaram contra a PM, que lançou mais bombas, desta vez de efeito moral, finalmente dispersando a festa. Alguns quarteirões abaixo, restaram funkeiros e punks. Os primeiros se queixavam: “baile funk sempre acaba assim”. Os segundos, entusiasmados com o enfrentamento, começaram a arrancar lixeiras e lançá-las na via. Cerca de dez minutos depois, aproveitando a debandada da maior parte da festa, a polícia avançou com viaturas contra os remanescentes, a fim de atacá-los individualmente, enquadrando-os. Resultado da noite: dez presos.

Em entrevista à TV, o comandante da repressão disse que a polícia teve êxito em impedir a realização da festa – cujo “intuito básico era a realização de bagunça”. A afirmação é bastante intrigante, afinal é mentirosa: a festa de fato aconteceu, ao menos durante algumas horas. Aparentemente trivial e provavelmente feito de maneira inconsciente, este acontecimento transparece um traço importante da lógica da repressão no Brasil: não basta por fim à festa; é preciso fazer com que ela nunca tenha acontecido. Cabe à polícia não apenas reprimir, mas também contar a sua versão da história, independentemente do quão absurda ela seja.

Contudo, no dia seguinte a avaliação dos participantes pelo Facebook era positiva. A festa havia sido “histórica”, apesar do “desrespeito” da PM e do “sensacionalismo” dos jornais. Na página dos organizadores, comentários já pediam um “Projeto P 2”. Quanto aos presos, não se teve notícia. Esta não foi a primeira, nem será a última vez. A repressão a festas do tipo é comum na cidade, sobretudo nas periferias. Mas o caso do Projeto P apresenta alguns traços diferentes, interessantes: não se restringiu a um bairro, nem a um “rolê”, atraindo gente de toda cidade. A quebra da rotina e as possibilidades libertadoras abertas pela ocupação de rua certamente tem a ver com esse entusiasmo.

Se ainda assim para muita gente foi uma simples balada (ou pior, uma bagunça) sem significado político, a própria repressão policial deu conta de mostrar o conteúdo subversivo da tomada do espaço público, de se divertir sem pagar ingresso. O modelo de cidade (e de sociedade) privatista e higienista, segregada e individualizada, que se tenta impor a São Paulo implica em sufocar todo tipo de encontro, festividade, felicidade, que não esteja devidamente tutelada e controlada. Nos bairros pobres, esse projeto se manifesta na exclusão e na chacina. Já para as classes médias, o fundamental é impedir qualquer desvio da disciplina obediente do “cidadão de bem”. Tarefa menos brutal, mas na qual a polícia cumpre um papel igualmente fundamental.

Nota do Passa Palavra:

[1]: Gíria para designar grupo de pessoas com afinidades sócio-culturais.

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