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Novembro 28, 2009

“As drogas não têm culpa de nada” – ENTREVISTA ANTONIO ESCOHOTADO

Antonio Escohotado é historiador, filósofo, sociólogo, escritor e professor. Sua obra História General de las Drogas o converteu em uma referência mundial na questão dos psicofármacos. Diferentemente da demonização e do proibicionismo imperantes, Escohotado aposta no uso responsável das drogas como via de conhecimento. Apresentamos abaixo entrevista concedida ao Diário de Ibiza e publicada em outubro deste ano (disponível em espanhol no site do intelectual).

(Tradução de Júlio Delmanto e Lucas Gordon)

O que o ser humano busca e o que encontra nas drogas?

Escohotado: Há pessoas que estão estudando ou trabalhando e que querem fugir, e o fazem através de psicofármacos em uma discoteca. Mas a fuga mais profunda é a amnésia, o começar do zero. As outras fugas são como sair e entrar na prisão. Sim, você sai no fim de semana, mas voltará segunda-feira ao trabalho e às responsabilidades.

Há muita gente jovem entre os consumidores de canábis e outras substâncias psicoativas. A que se deve o incremento deste consumo de estupefacentes?

Sim, os jovens de hoje são tremendos, além de tudo já começaram a cultivar eles mesmos, e quando não cultivam os roubam. De fato são as verdadeiras quadrilhas que estão devastando aos pobres cultivadores de canábis.

Estamos vivendo uma época muito mais sedentária e sobreabundante do que antigamente, e isso se reflete em nossos jovens. Porém, continuamos sobre a mesma pressão do tempo. Há os que nunca têm tempo suficiente para terminar um projeto, uma obra de arte ou qualquer outra coisa, e há quem fique de saco cheio. Estes últimos são os que estão sempre olhando o relógio pra ver quando acaba seu expediente. Esses são bucha de canhão para a discoteca atual.

Acredita que a sociedade faz com que esses jovens tenham problemas desnecessários e utilizem as drogas como válvula de escape?

Se por sociedade se refere ao Estado, quer dizer, este ente impessoal que mais ou menos limita os egoísmos de cada indivíduo, então creio que não corresponde ao Estado entreter as pessoas. O que acontece a estes jovens, como dizia Aristóteles, é que como não sabem fazer nada bem se aborrecem continuamente.

A tragédia da criança de dois anos, que é quando começa a ter coordenação, até que tenha 22, é que vai adquirindo cada vez mais aptidão muscular mas não por isso mais “coco”. “Coco” significa “amo esta coisa em suficiente medida para me transformar em especialista nela”. Esse é um dom que pouca gente tem. Os que o têm são seguidos incondicionalmente por todos os demais, que estão perdidos no aborrecimento.

Um grande número de consumidores e cultivadores luta pela legalização da canábis em nossa sociedade, isso acontecerá algum dia?

Creio que já aconteceu. A guerra está acabada faz tempo. Tamanha é a força do inconsciente, do anônimo, do gradual, que essas coisas acontecem meio a longo prazo, e sem nos darmos conta. Foi feito um experimento que consistiu em tirar todas as drogas de onde eram ministradas: das farmácias. O problema foi que elas não desapareceram, e sim foram dali para as ruas. Então, multiplicamos por muitos os pontos de venda, já que se antes havia um em cada farmácia agora resulta que há um em cada esquina.

Antes, as pessoas que tomavam drogas eram velhinhos, médicos, pessoal sanitário… os que sabiam dessas coisas e tinham acesso a elas. Agora, se estendeu a todos os estratos sociais e além de tudo estão muito alteradas.

Por que fracassou o experimento, como você chama, de deixar de vender certas drogas nas farmácias?

O experimento não foi normalizar e sim proibir, e o que saiu da proibição foi um aumento muito forte das drogas em todas as camadas sociais mas não se conseguiu conscientizar a sociedade de uma vida sem drogas. É tão difícil convencer uma sociedade que é melhor uma vida sem drogas como convencê-la de que é melhor uma vida sem orgasmos. Tomamos drogas sem parar, desde as que chamam medicamentos até as que estão no dia a dia, como o tabaco, o vinho junto com a comida… Uma vida sem drogas se parece mais com a de um faquir hindú, aos ermitões, aos solitários, Santo Antonio e suas tentações…

Qual foi a razão de proibir as drogas e tirá-las da farmácia se até então haviam sido legais?

Se estavam descobrindo novas drogas à toda velocidade, e o arsenal de novos produtos psicoativos deu medo. Creio que esta foi a verdadeira razão da proibição. Sempre se quis proibi-las da mesma forma que sempre se perseguiu as bruxas, o sexo e o livre pensamento. A decisão de proibi-las foi o grande salto da química de síntese ao final do século XIX, que surgiu num rápido descobrimento de coisas que não se conheciam, como os alcalóides.

Está demonstrado que a maconha tem grandes propriedades medicinais. Por que você acha que não se legalizou para fins medicinais?

O preconceito é sempre muito mais forte que o juízo para as desgraças dos seres humanos. O que distingue um do outro é que o preconceito não está informado, não está trabalhado, você não se põe a pensar no assunto, simplesmente se pega um clichê, uma etiqueta e diz que é seu.  Isso que vem freando o assunto da maconha faz muitíssimo tempo. Até o final é muito difícil conseguir fazer as pessoas verem que as drogas não tem culpa de nada, que se alguém tem culpa são os usuários da mesmo, pois as drogas são espíritos neutros.

Você defende o uso das drogas para fins cognitivos e terapêuticos. Como isso é afetado pelo fato de que só podem ser adquiridas no mercado negro?

O mercado negro tem sobre tudo uma falta de transparência na composição que impede a arte de tomar drogas, que é a arte de dosificar. Já diziam os antigos “sola dosis facit venenum”, só a dose faz algum veneno, mas como não sabemos a composição então tendemos a infra-dosificarmos, mas às vezes nos sobre-dosificamos.

A heroína é uma das drogas com pior fama em nosso país. Qual a sua opinião sobre ela?

É um fármaco muito interessante, tem uma fama negativa porque se converteu na droga de seres draculinos profundamente anti-sociais, que se odiavam a si mesmos e odiavam a sociedade. E isso os levou à heroína. Quando se inventou a heroína no final do séc. XIX e até os anos 30, foi a droga de gente distinta, o símbolo dos médicos e o grande substituto das pessoas que antes tomavam morfina ou ópio. Não me estranharia que com o passar do tempo a heroína volte aos círculos mais seletos. Isso se pode observar na Europa e nos EUA atualmente.

Não é fato que se trata de uma droga muito aditiva e destrutiva?

Não te vicia mais do que as pílulas de dormir ou o café. A droga que mais rápido vicia é o café. Bastam cinco dias tomando cinco expressos para que no quinto dia, se te dão um placebo ele não funciona, e se tem tremores, dores cabeça, irritabilidade, falta de concentração… e sendo que cinco cafés não é tanto, não é?

Qual você considera a droga que melhor se introduziu e se adaptou a nossa sociedade?

O cânhamo, porque é muito bom para as pessoas mais velhas e para as pessoas muito doentes. Aos jovens, sobretudo as mulheres, muitas vezes lhes traz “grilos”. Esses “grilos”, quero dizer que mexem com o inconsciente, isto é, não os deixa em boa consciência. Que os interroga e os faz pensar “não estou num bom caminho”, “é mais tarde do que pensava”, “estou no lugar certo?”. Creio que tenha essa capacidade de “Grilo Falante”, que convém aos jovens.

Por que começou a realizar seus profundos estudos sobre drogas?

Porque me incomodaram muitos a polícia e os mafiosos de Ibiza. Não havia conhecimento, e eu pensei que estava se iniciando no mundo um movimento. Que os economistas, os historiadores, os sociólogos, os cientistas políticos estavam começando a estudar esse novo grande fenômeno que são as drogas e sua influência social. Mas eu me enganava, o único que escreveu um livro de 1.500 páginas sobre o tema fui eu e agora terei publicado já 22 títulos diferentes, e levo já alguns quantos anos trabalhando no “Los enemigos del comercio”, que é a obra da minha vida.

Não te dá raiva que apesar de haver realizado muitos outros estudos, sempre te relacionam com o mundo dos psicofármacos?

O trabalho de “não-drogas” está pouco valorizado e o de drogas, demasiado.  Me transformei em uma espécie de guru involuntário para as juventudes espanholas. Não acredite que eu gosto viver como um guru. Existem certos verbos como “crer” e “salvar” que me incomodam, não gosto.

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