
Por Luciana Boiteux e LuÃs Fernando Tófoli

Apesar disso, o Presidente do Senado, Renan Calheiros, ao entender que este faria parte da pauta das recentes manifestações populares – no quesito segurança – deseja acelerar sua tramitação, conduzindo-o para o plenário na chamada ‘pauta positiva’.
Do ponto de vista da segurança pública, o projeto dá uma resposta irracional ao problema, aumentando as penas para tráfico quando envolver “crime organizado†sem fazer distinção objetiva entre traficantes e usuários. Quando a atual Lei de Drogas foi promulgada em 2006, ela foi acolhida como um avanço por extinguir penas de prisão para usuários e aumentar penas para traficantes.
Entretanto, não foram feitas distinções entre as quantidades de drogas de quem usa e quem vende substâncias ilegais. A decisão entre um e outro, portanto, é fortemente influenciada pela polÃcia, que dá tratamento diferente a quem mora no asfalto e na favela.
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A consequência disso aparece no super-encarceramento de réus primários pobres, que, presos como traficantes, profissionalizam-se no crime nos presÃdios brasileiros. Os condenados por tráfico e a circulação de drogas só aumentaram de 2006 para cá. Portanto, o PLC 37 aumenta as doses de um remédio que, além de ineficiente, agrava a doença.

Aceitar tratamento na fé de sua confissão está dentro do direito à liberdade religiosa, mas oferecer dinheiro público para cuidados em saúde usando métodos confessionais fere os princÃpios da laicidade do Estado e da universalidade do SUS, além da falta de evidência cientÃfica da eficácia desse modelo e das frequentes denúncias de violações aos direitos humanos.
O projeto ainda cria uma complicada categoria de internação involuntária, que, diferente da Lei da Saúde Mental, não estabelece padrões rÃgidos de controle e fiscalização de abusos.
Esses são apenas alguns dentre diversos pontos deste projeto indicados como problemáticos por polÃticos, cientistas, juristas, sanitaristas e ativistas, e uma nota pública contra a urgência na tramitação do PLC 37 foi subscrita recentemente por mais de 70 entidades da sociedade civil.
Sob o risco de aumentar ainda mais os problemas do já falido sistema carcerário brasileiro e de criar um lucrativo mercado de ‘cura’ de drogados pela fé, é extremamente importante que esse projeto mantenha-se em tramitação pelas comissões do Senado para que a sociedade brasileira o discuta com a ponderação e rigor que ele merece. Votá-lo sem debate nada mais é do que oportunismo polÃtico.
Publicado em O Globo em 9/7/2013
Luciana Boiteux é professora de Direito Penal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
LuÃs Fernando Tófoli é professor de Psiquiatria da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)