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Janeiro 15, 2010

Carta ao Brasil – Recordação de tuas dividas – 2010, ano de renovação!

Fernando Beserra

Brasil, vim lembrar-te daquela tua dívida… Eu sei de tuas dificuldades, sei dos teus problemas, e por isso mesmo, meu querido, é preciso que vejamos isso urgentemente, pois que tua dívida, é também contigo mesmo.

Meu querido, acho que lembras aquela tua divida com os consumidores de algumas plantas e substâncias que foram tornadas ilícitas. A dívida, faço questão de lembrar-te, não é apenas com eles, mas com toda multidão que atravessa este imenso espaço de terra, de desejos, de amores, de sofrimentos, que damos teu nome, ele mesmo, vindo de uma droga[1]. A estes fica ainda a salivação, na espera de uma suculenta carne, um pedido de perdão, de todos aqueles que em nome de uma moral, mesmo que de um gesto de amor, fizeram sangrar tantos e tantas brasileiras, sob a bandeira hasteada da “Guerra as drogas”. É pelo nome de tal bandeira, hasteada por Richard Nixon nos EUA em 1971, na procura de seu segundo mandato presidencial, que tantas pessoas são perseguidas, mortas, criminalizadas. É pelo nome de tal bandeira, do orgulho higienista e não da saúde pública, que tantas mães choraram e choram ao verem seus filhos vitimas indiretas ou diretas da “Guerra as drogas”. É pelo nome de tal bandeira, hasteada por tantas razões econômicas, que pessoas que por razões médicas poderiam se privilegiar de determinadas substâncias, são relegadas a dores desnecessárias, vômitos e enjôos decorrentes de tratamentos dolorosos.

Pois que foi uma droga, por que não dizer, o café, que em teu território mobilizou economicamente todo um período de nossa história e, ainda, se não hoje até há pouco tempo, era tu o maior produtor do mundo de tabaco. Pois, foi nestas mesmas terras, neste teu mesmo chão, que foi proposta a criação do “Sanatório para toxicômanos” ainda em 1921, e mesmo naqueles tempos sem o “sinistro”, vários jovens foram encarcerados nos porões dos “Sanatórios para psicopatas” como eram chamados na época os locais onde se tacavam “para a morte” os ditos loucos, subversivos e, de modo geral, os desviantes. Dos porões dos submundos, estes que foram chamados desviantes, outrora jovens, mas também pais de família, trabalhadores, gritam e exigem seu direito a voz. É preciso lembrar tua divida.

É, meu querido Brasil, com lagrimas que me lembro ainda quando em 1938, para obedecer a insensibilidade internacional, dos doutores da Liga das Nações, que você criminalizou o consumo, comércio e auto-cultivo de substâncias que chamou erroneamente de “entorpecentes”. E desde então estas pessoas sofrem pelas mãos dos agentes da lei que as deveriam proteger. São presas, humilhadas, especialmente se forem pobres, negras e morarem em comunidades onde a ação policial faz-se mais truculenta. São ainda hoje chamadas de “Zé pretinhos” por essa gente, e o peso dessa injustiça pesa ainda mais sobre tuas costas, quando vemos que ainda fazem muitas barbáries sob as asas de tuas leis.

Teu solo rico de belezas fez-se vil. De um lado, fruto não de tuas árvores, mas desta proibição ingrata que nos afligiu, nasceram hordas de deserdados que passaram a comercializar produtos outrora inócuos para muitos, hoje, “drogas perigosas”, do outro lado uma imensa burocracia corrupta, que vive da bandeira da “guerra as drogas” e se mantém nos altos postos de comando, com seu whisky no copo, e a hipocrisia na boca, nas meias ou nas cuecas.

Brasil, escute com atenção, é de um cidadão indignado, que ama estes que nasceram em tuas terras, que cresceram em teu solo, que parte o brado por mudanças. É dos que sofreram, dos que sofrem, dos que usam tais “drogas” e dos que não usam, é de todos que ainda acreditam que é possível pedir perdão, dos que ainda tem esperança. Vários países já começaram esta mudança, e já é tempo de começá-la aqui também!

O perdão, Brasil, que você tanto deve, deve mostrar-se em gesto em 2010. Um gesto de amor para contigo mesmo, para com os teus. É um gesto de amor com o mundo.

2010 é ano de mudança na lei 11.343 de 2006, ano de renovação.

2010 é ano de legalização!


[1] – O nome droga, do holandês droog (mercadoria seca) serviu para designar especiaria, de tecidos a substâncias psicoativas. ). De acordo com Carneiro (2005, p.11) a palavra droga serviu para designar, do século XVI ao XVIII, “um conjunto de substâncias naturais utilizadas, sobretudo, na alimentação e na medicina. Mas o termo também foi usado na tinturaria ou como substância que poderia ser consumida por mero prazer”.

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